160 Cápua, Maria Clara Buffo de (2011) “Imagens da MORTE no teatro de Tadeusz Kantor”
são deixados sozinhos, abandonados à própria existência, a materialidade da cena se faz evidente, tornando-se uma forma de poética. Assim, elementos materiais como, por exemplo, a madeira, o ferro ou o pano, no caso dos objetos, ganham um foco de luz podendo contracenar de igual para igual com a materialidade corporal dos atores, dada, por exemplo, pela autonomia do movimento, do gesto ou da sonoridade da fala. Essa aproximação entre o objeto e o homem não se deve a uma supervalorização do primeiro, mas antes ao reconhecimento da pobreza de ambos. Como que reduzidos, também eles, a objetos pobres, “os atores humanos entram em um espaço de atuação das coisas” (Lehmann, 2007: 121): des-vivificados, eles se igualam ao objeto. O processo de des-vivificação das figuras humanas deriva especialmente de dois recursos cênicos: a mecanização do movimento corporal e a utilização de manequins em cena. Quando observamos as figuras cênicas dos espetáculos de Kantor, em sua fase conhecida como “Teatro da Morte,” reconhecemos rostos pálidos de olhar muitas vezes vidrado, movimentos em solavancos e uma freqüente deformação na sonoridade da fala. Assemelhando-se a mortos que retornam de um outro mundo ou a marionetes estranhamente acordadas, as personagens se configuram como figuras autônomas – a fotógrafa que metralha seus modelos, a criança que veste uma roupa militar, entre outros – cuja simples presença ou aparição acaba por tornar-se absolutamente significativa, desprovendo-lhes a necessidade de uma construção realista. O impacto dos corpos mecanizados se completa na medida em que esses mesmos corpos se confundem aos bonecos que com eles compartilham a cena. Muitas vezes acoplados aos atores, os bonecos ou manequins são apresentados de modo a revelar algo de sagrado na imobilidade do objeto (Borie, 1997: 260). Como exemplos da forma mais trivial e pobre de imitação, os manequins transcendem a sua própria condição na medida em que se tornam referência de imitação aos próprios atores: Em meu teatro, um manequim deve tornar-se um MODELO que encarna e transmite um profundo sentimento da morte e da condição dos mortos, um modelo para o ATOR VIVO (Kantor, 2008: 201). Assim, como criaturas ao mesmo tempo daqui e de fora, estranhas e reconhecíveis, os manequins-atores e os atores-manequins permitem-nos uma forma de conhecimento metafísico pela experiência da obra kantoriana: o paradoxal reconhecimento em uma alteridade incompreensível, o reconhecimento da morte em nós. Esse encontro do inanimado que ganha vida com o humano des-vivificado não aponta exclusivamente para o vazio e a ausência, ao contrário, os espetáculos do