156 Queiroz, João Paulo (2011) “Vanitas” Revista :Estúdio. ISSN 1647-6158. Vol.2 (3): 156-157.
Vanitas Vanitas João Paulo Queiroz conselho editorial
Nietzsche apontou, na Gaia Ciência (§110), a intuição que relaciona o ‘conhecimento’ como um dos instrumentos do ‘poder.’ Traçou a equação que equilibra o conhecimento não como uma busca desinteressada, mas como um mecanismo formidável que transporta os seus portadores ao poder, à vantagem da sobrevivência: o conhecimento passou […] a ser um elemento da própria vida e, enquanto vida, um poder sempre crescente, até que os conhecimentos e aqueles erros fundamentais antiquíssimos acabaram por colidir, todos enquanto vida, todos enquanto poder, todos no mesmo ser humano. O conhecimento pode ser, à vez, uma vantagem adaptativa decisiva às alterações ambientais, uma vantagem de guerra, a diferença entre a vida e a morte: será a vontade de saber estudada por Michel Foucault (1994). Se o Bem Supremo, de Aristóteles, estava próximo do Belo e da Filosofia, Nietzsche revela-lhe o outro rosto, como o duplo rosto de Janus: do outro lado do Belo, e da arte, está, in absentia, o rosto da morte. O conhecimento, enfim, é movido pela sobrevivência, que tem na morte o referencial constante e inato. Dito de outro modo, a arte foi sempre empurrada em direcção ao Belo, pelo seu oposto, o desaparecimento. Os textos deste capítulo tocam a vanidade dos seres, a sua luta e a sua fragilidade. O polaco Tadeusz Kantor (por Maria Clara de Cápua), encenador e percursor da performance, utiliza como personagens os seus contrapontos inertes, os manequins, projecções fetiches de efémeros. Os personagens de Kantor alternam entre os vivos e os mortos, entre o sacrifício vital e o abandono esquecido da redenção. Os desertos existem na sala de aula, em Kantor. Mas também há desertos na sala de estar. Os perfis sombrios de Juan Paparella (no artigo de Miguens Ferro) exibem a solidão na intimidade: o conforto aborrecido, as ligações sem espessura, os afectos alienados, os cadáveres vivos. A morte de Cristo é a imagem do fim e a afirmação do princípio: o sacrifício, a oferta, expressos na substância do corpo, na ligação que une a magnitude