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:ESTÚDIO 3

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144 Polidoro, Marina Bortoluz (2011) “O que desaparece, o que resiste: para pensar o apagamento”

Figura 2 Leila Danziger (2006) Pensar em algo que será esquecido para sempre (Série Diários Públicos). Carimbo sobre jornal e encadernação, 70 páginas, 66x58cm.

trabalhando para ganhar mais. Com a história de Penélope, a aparente perda de tempo que existe nas ações de desfazer, nas tentativas de apagamento, ganha uma dimensão positiva. Por outro lado, aproximamo-nos do conceito de palimpsesto, que desfaz algo para reaproveitar o suporte: se tomado literalmente, refere-se aos pergaminhos que por seu alto custo e escassez eram reutilizados, depois da raspagem do texto pré-existente. Nessa direção, como em um manuscrito onde se descobrem escritas anteriores, diversos trabalhos de arte contemporânea não se oferecem por inteiro a um único olhar, mas possibilitam a descoberta de outros elementos por trás da superfície. No desenho de Cy Twombly (figura 3), Barthes identifica essa característica: isso apaga-se pouco a pouco, esbate-se, conservando a delicada sujidade da apagadela da borracha: a mão traçou qualquer coisa como uma flor e depois pôsse a divagar sobre este traço; a flor foi escrita, em seguida desescrita, mas os dois movimentos ficam vagamente sobre-imprimidos. É um palimpsesto perverso: três textos [...] encontram-se reunidos, cada um tentando apagar os outros, mas, dir-se-ia com o único fim de dar a ler este apagamento (1982: 143). Na obra de Twombly é possível ver a convivência entre o que aparece e o que desaparece, a inscrição e o apagamento. Qualidades mais ligadas à negação do que à afirmação do objeto do desenho. Destaca-se o final dessa citação, onde Barthes nos indica a importância do gesto: talvez o mais significativo a se ver no apagamento não é o vazio ou a nova imagem que surge, mas a evidência do gesto.


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