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:ESTÚDIO 3

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134 Gordeeff, Eliane Muniz (2011) “O Reflexo Cultural na Estética da Animação: a imagem animada em De Janela pro Cinema”

e contexto – uma criação brasileira a partir do “devoramento” das influências nacionais e estrangeiras. Eles são apenas elementos admiradores de Belle (personagem de Marilyn Monroe, representando o cinema americano) e invejosos de Othelo (personagem representando o cinema brasileiro) – metáfora de uma situação real, e outra desejada. E apesar da caracterização caprichada dos personagens e ambientes, percebese o artesanal de uma produção de poucos recursos – os bonecos de látex se desgastaram ao longo dos quatro anos de produção. Em algumas tomadas, a estrutura do boneco de Belle fica aparente – o que não rouba o charme das cenas (Figura 2). Esse "mau" acabamento encontra paralelo na estética da fome do cinema brasileiro. É certo que a animação não apresenta a miserabilidade de filmes como Vidas Secas (Rocha, 1965), mas sim a precariedade de um visual semiacabado, resultado da fome de criar, à margem do processo econômico. Em Macunaíma, que é do período chamado de Cinema Novo Rico (Xavier, 2001), também é possível ver uma mangueira de borracha de jardim, sendo usada como suporte técnico – na cena final, do afogamento. Baseado na obra homônima de Mário de Andrade, este apresenta a comicidade característica das chanchadas e uma estética tropicalista, autofágica, “cafona” e com o embate entre o erudito e a cultura de massa (Xavier, 2001). A animação de Rodrigues segue esta linha, com seu desfecho irônico e debochado (com o casal Othelo-Belle), contrapondo-se ao suspense da narrativa; e na decoração exagerada do cenário do apartamento da heroína – inspirado no filme Áta-me, de Pedro Almodóvar, 1990 (Q. Rodrigues, entrevista em 21 de setembro de 2009). Conclusão

Mesmo com características culturais marcantes, De Janela pro Cinema é um trabalho autoral pois há uma personalidade, uma vida, uma 'visão de mundo' que concentram sua função sobre a sua 'vontade de expressão pessoal' (Aumont, 2008). Expressão essa impregnada das muitas influências apreendidas pelo brasileiro Rodrigues – como a criatividade, a versatilidade e a persistência, apesar das dificuldades. Como obra de animação, marca o ressurgimento das produções autorais, balizado nas raízes mais identitárias de brasilidade. Resultado da criatividade aliada a “uma câmera na mão” (no caso, num tripé) – apresenta em si, uma homenagem ao cinema nacional. A observação crítica de Rodrigues sobre o mesmo é sintetizada no happy end (Morin, 1969) de Othelo nos braços de Belle. Inusitado, reflete a paródia, a ironia e humor brasileiros, sendo simbólico (Figura 3). Representa o contraste da cultura brasileira, ressaltados pela Tropicália: o nacional/estrangeiro, popular/ elite, arcaico/moderno. Belle também simboliza a anima, a sedução, a inalcançável produção americana (ela demora em se arrumar), enquanto Macunaíma


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