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:ESTÚDIO 3

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124 Rauscher, Beatriz Basile da Silva (2011) “Cruzamentos gráfico-espaciais: imagens estendidas no espaço na exposição Impressões Novas de Laurita Salles”

sentido indireto e impessoal (frio) do recurso gráfico próprio da comunicação de massa. No entanto, a imagem maior (Figuras 5 a 7) espelha a estrutura de madeira (quente) do teto: mimetiza o lugar pela dimensão, forma e cor. Mas a artista não nos furta o jogo: as imagens orientam o nosso olhar para o alto, e, ao nos darmos conta das largas traves de madeira; como não pensar em matrizes de impressão? Como não projetar, na cor metálica das imagens o cobre, matéria do repertório processual da gravura? Como não pensar na própria imagem como projeção do desenho reconhecido nas traves de madeira? Busca-se o ponto de vista, são inventadas outras imagens por meio dos possíveis deslocamentos no espaço. Esse primeiro encontro promove o percurso da mostra, pois somos impelidos ao trânsito na busca por uma aproximação maior do objeto. A segunda imagem que surpreende o observador é monotipia sem título (Figuras 8 e 9), criada para a parede baixa (200 cm) que faz a divisão entre o plano da rua e o do piso rebaixado da galeria. O que torna esse muro muito irregular é sua largura de onze metros: a imagem de quase dez metros “veste” a parede de um papel frágil, orgânico e impregnado de tinta também de cor metálica (algo entre o cobre e o ouro) em um instigante contraponto com as imagens em vinil. A grade que a imagem figura pode ser percebida em diálogo com os guarda-corpos que cercam as escadas e os mezaninos. Mesmo trabalhando em uma sintaxe geométrica, esse é o único trabalho da exposição em que a gestualidade da artista é revelada. São desenhos obtidos pelo processo do contato. Manifestam a autenticidade e a presença autográfica da artista de um modo mais contundente que o próprio desenho faria. As gravuras menores, da série Derivações (Figuras 10 e 11), são concebidas digitalmente. A geometria se constrói em um repertório econômico de cruzamentos lineares em horizontais, verticais e diagonais. Assim, a grande incidência de linhas e cortes nas imagens apelam para derivações dos elementos presentes no espaço. Os recursos e os substratos de impressão, por sua vez, oferecem-se em diferentes tatilidades e visualidades: estampas que se assemelham a matrizes de cobre e as impressões em forte relevo dourado (Figuras 12 e 13) não nos deixam esquecer de que o campo no qual esse conjunto de trabalhos se insere é o da tradição da gráfica, campo que a artista conhece em profundidade e reverência. Conclusão

O caráter indireto de produzir uma imagem e, posteriormente, transferi-la ao suporte – processo revestido de alquimia e mistério - é uma das características dessa mostra, a ponto de a matriz não se permitir revelar. Se, como propõe Didi-Huberman, toda impressão revela a ‘colisão do agora com o outrora’ (2008: 191) entende-se que, se, na década de 1990, a matriz era ela mesma, a obra, nessa mostra, as matrizes ficaram em algum lugar fora dela, só podemos buscá-las por meio dos traços da sua ausência.


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