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:ESTÚDIO 3

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É certo que, quando se pensa em estampa e impressão, pensa-se sempre na existência de algo que se possa chamar de matriz. O caráter gráfico está presente na matriz, mas, nesse caso, será visto como impressão. Em oposição à força da gravação, sob a qual são submetidas as matrizes, a impressão se realiza sobre a receptividade complacente do papel. É, por meio do contato entre a matriz e o suporte, que se produz a imagem. Os aspectos que se colocam em evidência pelos processos de impressão são: o caráter indicial da imagem impressa e a busca por uma semelhança, que se produzirá, no entanto, pela dessemelhança. A impressão, afirma Didi-Huberman (2008), transmite, não só visualmente, mas também fisicamente, a semelhança da coisa ou do ser impresso, e o resultado não é evanescente, como o caso do espelho, mas nasce literalmente enquanto corpo produzido pela operação do contato. Nas estampas de Salles, o suporte é constituinte das obras. Em parte delas, temos os sulcos visíveis, em outras, esses sulcos são substituídos pelo corte a laser que atravessa o suporte rígido. É tátil, a matéria gordurosa da tinta sobre o fino papel arroz. Os sentidos de presença e de ausência impregnados nessas imagens fazem surgir, no visível, a questão do contato. Observa-se que Salles reuniu ali um conjunto variado de impressões: monotipias, impressão e recorte digital, buril eletrônico. Os suportes de impressão vão do mais fino e orgânico papel de arroz aos substratos plásticos e vinílicos rígidos. As dimensões, também variadas, vão das agigantadas impressões digitais, que ocupam duas grandes paredes (Figuras 5 a 7) , às pequenas impressões em vinil, quase ocultas, sob o mezanino (Figuras 10 e 11). Essas imagens não se definem, portanto, apenas no modo em que foram produzidas suas matrizes, mas, e principalmente, no modo pelo qual foram concebidos seus processos de impressão: qualidade material e dimensão dos suportes. Na simbiose com o espaço, fica perceptivel que a artista redesenhou o lugar por dois pontos de vista: em um, viu sua forma atravéz da gráfica, no outro, concebeu a gráfica a partir do ponto de visão que a galeria do museu lhe forneceu. Três grandes peças ocupam três das quatro paredes irregulares do centro da galeria. As duas maiores, que ligam os dois planos do edifício, receberam as maiores imagens da exposição: são impressões em recorte de cinco metros em vinil, adesivadas nas paredes. A cor metálica e a matéria reflexiva enfatizam o

Revista :Estúdio. ISSN 1647-6158. Vol.2 (3): 119-125.

3. Imprimir e projetar

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importância da mostra de Uberlândia: não se trata de tomar a corrosão como o único lugar definidor da gravura. Entendendo em profundidade o complexo de gestos técnicos que definem a gráfica em seu aspecto amplo, Salles opta, ora por um ou por outro gesto, sem que isso represente um aspecto limitador em sua busca. Nesse caso, a estampa reaparece em sua obra em diálogo com o campo expandido da gráfica, e o trânsito novamente se dá.


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