120 Rauscher, Beatriz Basile da Silva (2011) “Cruzamentos gráfico-espaciais: imagens estendidas no espaço na exposição Impressões Novas de Laurita Salles”
de três paredes superdimensionadas e sob o forro branco, ajustado na parte interna das águas do telhado, vê-se, aparente, todo o madeiramento que o sustenta (Figuras 1 a 4). Salles não se fez de rogada diante do desafio imposto pela arquitetura e a exposição que queremos por em foco, fez dialogar a plasticidade de sua gráfica com esta espacialidade impactante. Sabemos que os artistas têm se preocupado, cada vez mais, com o modo de apresentar seus trabalhos, a ponto da instalação ser considerada hoje, conforme expõe Stéphane Huchet, uma verdadeira ‘disciplina da exposição.’ Ele nos alerta que sempre que se pensa a arte contemporânea, deve-se voltar às questões que ocuparam o espírito de muitos artistas a partir da década de 1960: o que é expor?, o que é o espaço?, como um dispositivo se relaciona com o espaço?, como o espaço assim ocupado traz informações estéticas ou suscita uma percepção suscetível de prolongar-se numa recepção de ordem mais mental, mais consciente? (Huchet, 2009: 250). Por certo, essas questões estavam presentes no processo de criação de Laurita Salles, veremos de que modo. 2. Conquistar, pela gravura, o espaço exterior à obra
Salles é uma das mais importantes artistas brasileiras, que tem, na gravura, o locus da constituição de sua poética. Sua abordagem da gráfica, no entanto, coloca-se no âmbito da investigação dos processos e situa-se no limite das linguagens. Entre as suas obras mais conhecidas, estão as pesquisas sobre o suporte. Na historiografia da arte brasileira, Chiarelli qualifica como original, as pesquisas que buscam o ‘o caráter intrasitivo, mudo’ da linguagem gráfica, cujo fundamento reside na busca pelo “elemento mínimo da gravura” (1999: 262, 218). Para ele, a artista encontrou o ponto definidor da gravura na ação de incidir o buril sobre a matéria. Assim, antes que no papel ou na impressão, nas obras da década de 1990, o foco da artista está na radicalização dos processos de corrosão do metal. O embate entre a resistência do metal e os agentes da corrosão está na origem das propostas daquele período, entre as quais se encontram espessas matrizes de metal, às quais conferiu autonomia de obra, e também os cilindros parcialmente corroídos por ácidos. Ainda que essas obras apelem à tridimensionalidade, elas são o resultado de um pensamento gerado na prática da gravura. Annateresa Fabris (1997), nessa ocasião, observou um movimento no qual a obra da artista se dirigia ao objeto: uma investida na saída da bidimensionalidade da folha de papel para a conquista do espaço exterior à obra. No entanto, na exposição Imagens Novas, esta intenção se realiza sem que a artista tenha que abrir mão do papel e da impressão. Aí reside, entre outros aspectos, a