106 Ferrony, Maria Cristina (2011) “Dos perceptos, dos afectos, do mito, das sensações, dos objectos”
da fecundação? No ósculo em suspenso, a união entre as carnes. Nesse movimento apenas descrevo o que se dá a ver e o digo à minha maneira, ou à maneira que de mim se acerca. Mas há um entendimento inato das coisas, dos objetos que valem por si mesmos como puros perceptos. Não há como nos desvincularmos dos sentimentos ulteriores de que somos constituídos, que não estão nas lembranças, numa nostalgia fixada em um lugar ou tempo definido, mas que submergem na presença de determinados indicadores pelos quais somos invadidos. Os objetos utilizados nessa obra não nos dizem nada que evada de sua condição como objetos, mas são continentes férteis desses sentimentos inexplicáveis. Objetos como seres de sensação, entes vivos inorgânicos compostos de carne. A composição de um corpo-casa. Eis tudo que é preciso para fazer arte: uma casa, posturas, cores e cantos – sob a condição de que tudo isso se abra e se lance sobre um vetor louco, como uma vassoura de bruxa, uma linha de universo ou de desterritorialização (Deleuze & Guattari, 2007: 238). O erotismo, na obra de Veiga Vieira, é sublimado, mas é afecto. Não se lança à graça de uma interpretação imediata, mas é ser de sensação, contido no conjunto da obra em cada elemento que a compõe. Aqui a ‘idéia’ de erotismo não está contida na matéria corpórea da obra, mas esta a sustenta, na medida que os seus componentes a ela se reportam. Um encontro, ‘acontecimento.’ Os elementos mais reconhecíveis da arte contemporânea, o humor, a ironia, o inacabado, o atraso, o insólito e o erótico, portanto, não se apresentam nessa obra a não ser como entes ocultos, mas o ‘invisível,’ que também se traduz como ‘pensamento,’ outro forte elemento partícipe a compor nessa esfera, apresenta-se como a assegurar o estatuto de O Nascimento de Afrodite - Sobre a Origem e Criação como uma incontestável obra de arte contemporânea. Afora os elementos que não se dão a ver claramente, brotam algumas questões específicas da arte contemporânea no encontro com essa obra, como o rompimento manifesto em relação à ‘pureza dos meios,’ um preceito característico da arte moderna. Não é pintura, no entanto, há pintura; não é escultura, no entanto, expande-se no tridimensional; há fotografia, mas esta faz parte do conjunto e sem ele passa a significar outra coisa. É a transposição, portanto, dos limites da ação estética. A impessoalidade dessa obra, também, a jogar com a questão da identidade das coisas, que não são mais o que são. O ovo, o barro, o tecido, o banco, a esponja, a tigela, a fotografia são outras coisas nessa obra, e é claro que ainda os percebemos como os objetos que são, pois que não foram transgredidos na sua forma. Mas são outras coisas... do âmbito das sensações, entrelaçados na composição de uma nova força. “Podemos dizer que o trabalho do artista (a obra de arte) consiste exatamente nessa decifração das sensações” (Rolnik, 2007: 3). Os materiais foram reunidos e combinados de maneira que pudessem comu-