104 Ferrony, Maria Cristina (2011) “Dos perceptos, dos afectos, do mito, das sensações, dos objectos”
Um assalto ao nosso bem arranjado senso estético, O Nascimento de Afrodite é como que uma educação do olhar, que se obriga a lhe perceber como algo muito belo. Essa composição visual é de uma peculiar harmonia, em que nada parece exceder nem perturbar o equilíbrio do conjunto. À sensação de fragilidade na apreensão do pequeno objeto (o ovo) que se acomoda na superfície aparentemente instável do tecido, contrasta uma atitude de acatamento por seu imperioso e solene estado a nos capturar em veneração como que diante de um objeto sagrado. Quanto tecido em barro será necessário para suportar o peso da criação? Quanto nos revela em ‘possíveis’ esse objeto hermético – o ovo? Ao escorregar nosso olhar pelas carnes que o sustentam confirmam-se as dores e os suplícios da inexorabilidade do nascimento, a violência dos órgãos na conformação do novo corpo. Absoluto, perfeito, o ovo impõe-se como a obra de arte mesma, nunca um fim, mas algo a tornar-se outro. Um devir. Segundo Deleuze, o ovo é pura sensação, é corpo sem órgãos - CsO - termo nomeado por Antonin Artaud em seus escritos e adotado por Deleuze para dizer do estado de um corpo ‘antes’ da representação orgânica, mas é um corpo pleno de intensidades, ‘limiares ou níveis’ (Deleuze, 2007: 51). É “campo de imanência do desejo, o plano de consistência própria do desejo (ali onde o desejo se define como processo de produção, sem referência a qualquer instância exterior, falta que viria torná-lo oco, prazer que viria preenchê-lo)” (Deleuze & Guattari, 2004: 15). É o grau zero, um nada que é tudo, onde tudo pode vir a ser. Essa obra, intensamente fecunda na produção de sentidos, traz no título sua alusão ao mito da beleza. Na exaltação do mito, o momento mágico da sua criação, o paroxismo do belo. A qualidade estética de sua composição, portanto, é asseverada pelo mito. Afrodite, na mitologia grega, a deusa do amor, da beleza corporal e do sexo. O momento sublime de seu nascimento é uma passagem obscura da mitologia em que diferentes versões o descrevem, e ficamos a sondar, sobre essa versão apresentada por Veiga Vieira. Parecendo recusar peremptoriamente uma deificação clássica, o mito revela-se, apesar disso e ostensivamente, na escolha por materiais carregados de eflúvios indicativos, a começar pelo “ovo,” e sua associação primeira à origem, ao nascimento, à própria vida manifesta na máxima perfeição da forma. E o que o acomoda, as peles do elemento terroso, que, na cultura judaico-cristã, também remete à criação – o homem moldado em barro por Deus. Se à obra colarmos nosso entendimento matérico do que seja o nascimento, a carne, a secção e o sangue, a natureza animal desse acontecimento irrompe no protuberante tecido pintado de argila. A banqueta revela sua condição prestimosa, como a superfície de amparo que sustenta a carne, o altar que a recebe; o pêndulo demarca o centro, o vetor, e promove a unção da esponja vegetal com o continente do receptáculo configurado na tigela, a água argilosa contida na concha de Afrodite (Figuras 3 e 4). De onde somos levados, através desse recuo de entidades, a vislumbrar aí o momento