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:ESTÚDIO 11

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1. Um breve retorno ao problema: o que é um livro de artista? Apesar do termo livro de artista poder ser utilizado, no seu sentido lato, para denominar uma categoria abrangente de obras que têm como referência o livro, ainda que não se limitem a ele, não resta dúvida que pode-se procurar as origens do tipo de obra reconhecida atualmente como “livro de artista estrito senso” nas experiências conceituais dos anos 1960-70. Nesse estudo, o termo livro de artista será utilizado no seu sentido estrito, ao focalizar, especificamente, a Revista Classificada (Figura 2), que integra a Coleção Especial de Livros de Artista da Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais. As obras dessa Coleção pertencem, em sua maioria, a uma linhagem que descende diretamente das publicações de artistas surgidas durante os anos 1960 e 1970, dentro de uma tendência conceitual. Nesse contexto, interessa apontar as estratégias adotadas pelos artistas, na elaboração dessas obras de evidente cunho conceitual, ou seja, a ênfase na ideia (em detrimento da forma), além de algumas características frequentes nas propostas, como a transitoriedade dos meios e a precariedade dos materiais utilizados, a atitude crítica frente às instituições artísticas, assim como as particularidades nas formas de circulação e recepção de certo universo de obras numa determinada época (Freire, 1999: 16). Como se sabe, a arte conceitual “influenciou (…) a noção corrente de publicação de arte no período. Não apenas os livros de artista […] mas também outras formas de edições podem ser melhor analisadas à luz das proposições Conceituais” (Freire, 1999: 19). Naquele momento os papéis do artista e do público passavam por novas definições, sendo que a atitude passiva do último foi

223 Revista :Estúdio, Artistas sobre Outras Obras. ISSN 1647-6158, e-ISSN 1647-7316. Vol. 6 (11): 222-232.

Paulo Bruscky (Figura 1) nasceu em Recife, Pernambuco, em 21 de março de 1949. Artista multimídia e poeta, Bruscky utiliza várias formas para a circulação de seus trabalhos, tendo sido um dos pioneiros da Arte Postal no Brasil, que ele denominou Arte Correio. Além disso, tem colaborado na introdução de várias tecnologias na arte, como o fax, o filme super 8, a arte em outdoor (artdoor), o xerox, o offset e o mimeógrafo. Sua obra pode ser analisada a partir de seu caráter poético/político, mais especificamente no campo da micropolítica, ao discutir problemas específicos, cotidianos, locais, ao mesmo tempo em que dialoga com questões globais (Ribeiro, 2012). Bruscky iniciou sua carreira artística no período em que o Brasil vivia sob uma ditadura militar (1964-85), tendo sido muito atuante desde essa época. Através de seu trabalho enfrentou o regime ditatorial, tendo sido perseguido por defender a liberdade de expressão num momento em que o país passava por forte censura a todos os tipos de manifestações artísticas.


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