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:ESTÚDIO 9

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136 Cartaxo, Zalinda Elisa Carneiro (2014) “Ressonâncias: a pintura interventiva de Rui Macedo.”

uma configuração não é uma arte, nem um gênero, nem um período ‘objetivo’ da história da arte, nem mesmo um dispositivo ‘técnico’. É uma seqüência composta de um conjunto virtualmente infinito de obras, sobre a qual tem sentido dizer que ela produz, na estrita imanência à arte em questão, uma verdade dessa arte, uma verdade-arte […] Na realidade, uma configuração se pensa a si mesma nas obras que a compõem. Pois, não o esqueçamos, uma obra é uma investigação inventiva sobre a configuração, que pensa então o pensamento que a configuração terá sido (sob a suposição de seu acabamento infinito). Mais precisamente: a configuração se pensa na prova de uma investigação que, ao mesmo tempo, a constitui localmente, desenha seu porvir e reflete retroativamente sua curva temporal. Deste ponto de vista, é preciso sustentar que a arte, configuração ‘em verdade’ das obras, é, em cada ponto, pensamento do pensamento que ela é (1994: 28-9).

A compreensão de tal estrutura importa, aqui, especificamente, pela revelação do modus operandi pelo qual o artista português Rui Macedo concebe suas obras. Pintor de formação, sua produção artística sugere um paradoxo: a utilização dos princípios tradicionais da pintura, como o trompe-l’oeil, acordados, no entanto, a determinadas estruturas praticadas de modo recorrente na contemporaneidade, como por exemplo, os conceitos de apropriação, de site-specific ou de intervenção. Num primeiro olhar, localizamos algumas constantes no seu trabalho: a ênfase na figuração, o mimetismo, o diálogo profícuo com o locus ou a constante reflexão sobre o suporte. O suposto paradoxo observado em sua produção artística desfaz-se mediante a consideração de algumas questões teorizadas a partir de meados do século XX. Antes de tudo, devemos observar que o foco do trabalho de Rui Macedo está na pintura e que, portanto, faz parte de uma geração de artistas que a pratica a partir da reflexão de conceitos, agora, cristalizados. Conceitos surgidos da reflexão do ser pintura teorizados por artistas e críticos, como por exemplo, o plano flatbed, de Leo Steinberg; os objetos específicos, de Donald Judd; a teoria do não-objeto, de Ferreira Gullar; de entre tantos outros. Se, de um modo geral, a arte contemporânea carateriza-se pelo seu diálogo com o real, nada mais coerente do que a pintura na atualidade também adotá-lo. A distensão da pintura do seu suporte tradicional em direção à realidade aproximou-a de outras frentes estéticas como a instalação ou a intervenção. O movimento de alcance do espaço real pela pintura faz-se lógico pela sua própria estrutura histórica. A pintura como espessura, formada por camadas agregadas temporalmente concilia o suporte e a superfície pictural, confundindo-os. Este movimento oscilatório de uma dupla travessia, da superfície em direção à profundidade e o seu retorno, determina aquilo que Didi-Huberman denomina


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