Skip to main content

:ESTÚDIO 8

Page 93

Conclusão Cada um destes enquadramentos traduz um plano cinematográfico que, por definição, é em si uma unidade narrativa e representativa. O cinema permite ao imaginário a experiência de atmosferas a que a própria natureza é alheia, ajuda a interpretar o mundo, ou melhor a desenvolver uma outra forma de apreensão do real. E se o cinema põe em prática uma outra maneira de ver as coisas, é porque permite a passagem (essa relação tão íntima entre a profundidade do écran e os olhos do espectador) de uma estética da representação para uma estética da percepção. Todavia, é precisamente o cinema quem, de forma recorrente, nos oferece um outro olhar sobre a pintura, revisitando temas, pintores e obras em remissões onde o passado confere à atualidade o sentido da experiência anacrónica. A paisagem não é, apenas, pano de fundo, mas parte integrante do décor onde as margens do Douro foram pretexto, referência e território para o exercício de um olhar onde sensualidade e suspensão correm a par de um corredor, ora fluvial ora pavimentado. Ao selecionar os enquadramentos deste filme, de algum modo traímos um modo muito peculiar da realização de PR — os planos-sequência — impossíveis de observar neste tipo de apresentação. Contudo, referimo-los porque recordamos a desmesura horizontal dos ’panoramas’ que as lentes anamórficas do cinemascope, outrora filmaram a natureza e para salientar o quanto elas foram, no discurso da paisagem cinematográfica, o embrião do futuro plano de sequência. Ciente do valor convencional da relação entre natureza e arte que a imagem do cinema potencia, PR aborda-o aí refletindo o seu saber e gosto pela pintura, enquanto referência histórica e artística comprometida com a atualidade. Subtilmente, a experiência do espectador suspenso da representação que se opera na tela entra na história, saindo da tela, como se os seus próprios olhos pudessem selecionar uma parte do território desta outra natureza, atrevendo-se a definir enquadramentos, na busca constante do equilíbrio composicional

93 Revista :Estúdio, Artistas sobre outras Obras. ISSN 1647-6158, e-ISSN 1647-7316. Vol. 4 (8): 88-94.

Perto do final da rodagem, o realizador vem a descobrir, na vivência da própria paisagem, a realidade da sua envolvente vital. Esta realidade natural que se sobrepõe ao seu próprio vocabulário é, também, uma realidade ficcional e plástica que acontece neste filme de forma poderosa. Precisamente, será com o cinema que mais damos conta das mudanças na paisagem e, mesmo quando ela é pano de fundo, o processo de preparação do olhar, hoje identificado como artialisation (Roger, 1998), decorre dos processos de leitura do visível que mediados pela arte estão para lá da natureza do território geográfico.


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook