90 Bronze, Manuela (2013) “O Rio do Ouro: uma ideia de paisagem.”
Figura 1 ∙ Paulo Rocha, O Rio do Ouro, 1998, Plano Geral/fotograma: cena inicial do filme. Fonte: própria
composição de formas abstractas, onde o contraste absoluto é reforçado pela horizontal que propõe a simetria. Neste fotograma (Figura 2), um outro Plano Geral, contextualiza o final da festa da boda. Estamos perante a evocação de um retalho do quotidiano no campo, como convém a este género de pintura de paisagem. Um plano onde o décor, de sabor novecentista, torna verosímil o acontecimento, quer pelo enquadramento e perspectiva quer pelos próprios elementos em cena. Ao mesmo tempo, aí estão quase todas presentes as cinco coisas essenciais que dão alma à paisagem: as figuras, os animais, a água, as árvores agitadas pelo vento e a leveza do pincel, conforme as observações gerais sobre a paisagem do Curso de pintura por princípios de 1708 (Piles, 1989). Alguns convivas perecem conversar, enquanto outros se abandonam à sonolência por entre os despojos da festa, mesmo ali na margem do rio, compõem uma imagem exemplar do que, no séc. XIX, o “pitoresco” exprime, nas palavras de Argan: (...) em tonalidades quentes e luminosas, com toques vivazes que põem em relevo a irregularidade ou o caráter das coisas. O repertório é o mais variado possível: árvores, troncos caídos, manchas de grama e poças de água, nuvens móveis no céu, choupanas de camponeses, animais no pasto, pequenas figuras, a cada uma das quais correspondem diferentes tipos de ‘manchas’. (Argan, 1977: 10)
Transparece na cena o prenúncio de uma qualquer agitação passional, cujo desfecho nos será dado brevemente. Se o todo da imagem se aproxima ou nos remete para o que recordamos de Corot, Daubigny, Millet ou mesmo Constable, já as colchas amarela e vermelha, acondicionadas à maneira de toldos, relevam, no modo enquadramento