A natureza que fala para a câmara de filmar não é a mesma que fala para os olhos (Benjamin, 1992: 86)
Se as margens do Douro são grandiosas e sublimes enquanto paisagem, não foi ao encontro disso que PR foi, nos dias de répérage. O que lhe interessava era encontrar algo que se aproximasse, enquanto enquadramento, daquilo que se pode considerar uma dominante pictórica. Desde logo uma dominante que, dada a circunstância provinciana da narrativa, radica na paisagem e vai ganhar expressão, enquanto categoria, à luz das teorias académicas da pintura, nomeadamente, as que precederam a modernidade. A paisagem do realizador seria aquela e mais estoutra que o seu olhar observara, exposta enquanto pintura nas paredes dos museus. Nada haveria de reverencial perante esta natureza. O que interessava evocaria a imperfeição do homem e da natureza, os pormenores curiosos e caracterizadores e a interpretação poética de uma atmosfera peculiar, ou seja, todo um enunciado sobre a estética do pitoresco, enquanto exercício para uma descoberta visual (Gombrich, 2011) deste mundo particular de Carolina, António, Mélita e Zé dos Ouros, as personagens principais do enredo. É a sua paisagem do Douro que se torna uma possibilidade estética da natureza e inscreve, na tela, a relação verdadeira dos personagens com a natureza e com a natureza dos personagens. É com esta imagem (Figura 1) que entramos em O Rio do Ouro. O rio dos desenganos (Guimarães, 1998) ecoa na canção e, plácido, espelha o céu dourado onde o recorte contrastante das margens nos oferece uma natureza fechada e misteriosa num Plano Geral muito alargado, que lembra alguma da pintura da escola de Barbizon. Simultaneamente, na imagem e devido à escala do afastamento, o Plano Geral dá-nos um claro-escuro que se transforma numa
89 Revista :Estúdio, Artistas sobre outras Obras. ISSN 1647-6158, e-ISSN 1647-7316. Vol. 4 (8): 88-94.
Ora, as escolhas de PR, sempre em cenário real, constituíram um enorme esforço de busca por um lugar onde o acesso, tendo sido particularmente difícil de descobrir, seria ainda de difícil permanência. Perante tão limitadas condições de filmagem, a garantia de um ponto de vista jamais utilizado é factor determinante, por oposição ao do reconhecimento. Tal condição vai proporcionar ao espectador uma experiência fílmica de mudança na forma de percepcionar o espaço; como se a salvaguarda do ponto de vista fosse da inteira responsabilidade individual do realizador. É assim que estas imagens do lugar se transformam numa verdadeira paisagem cultural, pari passu com a própria narrativa, funcionando em desdobramentos de poéticas da memória, perante uma identidade geográfica e perante a própria pintura.