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“[...] Enquanto permanecemos nas proximidades do Rio São Francisco, fomos obrigados a conduzir nossa tropa, através das entrelaçadas cercas vivas de espinheiros do alagadiço. Afastando-nos para leste, entramos em caatingas que tinham aspecto outoniço, onde as únicas plantas verdes eram hastes carnosas de cereus, algumas caparidáceas e janifos (Cnidoscolus, Pohl), cobertos de espinhos cáusticos […]”.

3. Da contemporaneidade da paisagem de Mário Zavagli

O que encontramos de contemporâneo nas paisagens de Mario Zavagli? Entre os elementos que esperamos identificar em nossas análises, certamente estará presente seu entendimento da obra de arte como veículo e meio realizador de experiências estéticas de grande impacto. A vontade do artista certamente

55 Revista :Estúdio, Artistas sobre outras Obras. ISSN 1647-6158, e-ISSN 1647-7316. Vol. 4 (8): 52-57.

aspecto importante de sua obra: suas paisagens não constituem equivalentes visuais da natureza, mas sim um compilação de invenções pictóricas bastante autorais derivadas de profunda análise e entendimento dos detalhes da paisagem natural. Existe em seu trabalho uma dualidade entre o linear e o pictórico. De um lado, percebe-se que o desenho é, sem dúvida, o elemento estruturador de sua obra. É bastante evidente a importancia que o artista concede à preparação e marcação dos contornos dos objetos posicionadores da composição, em busca das formas e arranjos que considera ideal. O desenho é, para Mário Zavagli, o recurso operativo fundamental para pensar a obra, assim como entendia Degas, em citação por Paul Valéry: “O desenho não é a forma: é a maneira de ver a forma” (2003). Por outro lado, as áreas internas das formas receberam um tratamento mais pictórico, onde os contornos são menos definidos e permitem maior ligação entre áreas de cores e tratamentos diferentes.Esse duplo tratamento confere à obra sua personalidade diferenciadora. Em outra vertente da obra, reconhecemos em seu esforço de representação uma forte componente narrativa. Há um caminho discursivo visual a ser seguido, que parece nos conduzir em uma experiência de apreciação estética estranhamente direcionada. O artista parece interessado em nos fazer ver determinadas áreas das formações naturais, como se estivessemos analisando um delicado mapa. Este contexto narrativa/descritivo também estava presente nas obras dos artistas viajantes do século XIX, importante referencia de Mário. Deste modo, é possível estabelecer uma comparação entre as aquarelas de Mario Zavagli e os escritos deixados por artistas e cientístas que estiveram no Brasil no inicio do século XIX. Do trabalho deixado por Martius e Spix (1938), resultado da expedição que os dois naturalistas realizaram no Brasil, entre 1817 e 1820, recolhemos o seguintes excertos:


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