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:ESTÚDIO 8

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211 Revista :Estúdio, Artistas sobre outras Obras. ISSN 1647-6158, e-ISSN 1647-7316. Vol. 4 (8): 208-212.

No paralelo entre artes visuais e road movies há vários enquadramentos possíveis: janelas (figura 1), fotografias, “murais” (figura 2 e figura 3). Entretanto, para além desse olhar enquadrado da realidade, há outra delimitação, interior, a soulscape que torna a árida landscape uma narrativa ancilar da estagnação do sujeito amoroso, condições que desenham um espaço-imagem irritantemente estável: “Mal comecei a viajar e tudo já me irrita. A paisagem não muda, é sempre a mesma coisa. Parece que não saio do lugar”, afirma José Renato a certa altura. Ou, segundo outra reverberação, ocorrida em vista da aparente repetição das medidas das fraturas geológicas, o viajante expresse uma experiência exasperante de monotonia e isolamento opressivo porque só percebe solidão diante de si. As fraturas geológicas se repetem; a paisagem repete o sujeito fraturado. Ademais, o carro é um espaço intimista para José Renato porque na imobilidade do automóvel, por estar muito tempo sentado em uma paisagem móvel, é possível olhar para a inércia interior. É quase um paradoxo do “movimento estático” (Kiarostami apud Bernadet, 2001: 95): o protagonista em still life. “Dentro de um carro”, afirma Kiarostami, por não conter nada de supérfluo “é o melhor lugar para olhar e para refletir” (apud Bernadet: 2001: 41). Nesta poética do paisagismo em movimento que é o road movie, há uma profunda interação entre o mundo pessoal e o mundo exterior. No filme analisado, o espectador não vê o viajante, podemos apenas construí-lo mentalmente por meio da voz em off sobreposta ao cenário de travessia. A presença vocal funciona como metonímia do corpo e força motriz do enlace entre comentário, memória e paisagem. Na verdade, o espaço-imagem construído pelo olhar comentado leva José Renato a confessar parte do seu imaginário cartão-postal: “Tô cruzando uma estrada inteira, num por do sol romântico. Lembro do nosso último por do sol juntos, lá na Praia do Futuro.” Com exceção deste momento, o resto do espaço é vivenciado como expressão simbólica do abandono, do isolamento forçado, da tentativa inútil de esquecer. O objetivo-ouro da viagem do narrador é a fuga do fracasso conjugal, escapatória constantemente frustrada por conta do pensamento da paisagem — o cenário, por sua presença maior que a do narrador fora de campo, mobiliza o motorista a vocalizar o que vê e responder ao que a natureza diz. O título do filme, retirado de um grafitti de banheiro (figura 3), torna-se a premissa da narrativa, chegando a ser contrariada por José Renato em dado instante: “Viajo porque preciso, não volto porque ainda te amo.” Assim, transmutando o espírito ao longo da viagem, o viajante abandona a visão monótona e afirma a transitoriedade: “Nada é eterno, nem um acampamento de beira de estrada. Nem as falhas geológicas. Nem o amor é eterno. Até o amor se acaba.” Experimentada como travessia necessária à alma do personagem-narrador, a viagem pela paisagem


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