Skip to main content

:ESTÚDIO 8

Page 204

204 Cardoso, Silvia H. dos Santos (2013) “Anna Mariani e as casinhas nordestinas.”

A combinação entre as cores — duas ou mais matizes — revelam certa harmonia: azul/azul claro; rosa/marrom; rosa/amarelo; amarelo/branco; rosa/verde/ branco; entre outros, são reunidos e marca uma identidade, certo temperamento familiar ou do chefe da família, um trabalho genuíno apesar de algumas referências sociais e locais, e muitas vezes religiosas. Contudo, o que é a cor para o nordeste brasileiro? Para o homem nordestino? O significado da cor, da pintura é consciente? São apenas questionamentos. Não existe uma resposta precisa, mas sabemos que a construção das fachadas destas casas com cores e detalhes específicos está no domínio do fenômeno cultural. Na publicação de Pinturas e Platibandas (2010) de Anna Mariani, volume com cerca de 200 fotografias de habitações populares realizadas no período entre 1976 e 1995, confirmamos que a fatura da pintura tem a cor como elemento diferenciador. A arquitetura é vernacular e popular, e conta muitas vezes com a simples presença de uma porta e uma janela, quando não, se observam um elemento decorativo à luz da natureza — flores e folhas — ou a data da construção. Contudo, é a cor que marca a diferença: a tonalidade forte acentua certo destaque com relação às outras casas; uma tonalidade mais suave expressa delicadeza, o que também chama atenção através do tom pastel. Nesta paisagem, um jogo competitivo marca a concorrência entre os habitantes locais: se internamente as casas são equivalentes quanto à arquitetura e, especificamente, a divisão interna (quartos, sala, cozinha; o banheiro costumava estar fora da casa), externamente, a fachada marca o espaço público e nesta área todas as singularidades culturais são reveladas. Certa vez, uma moradora disse que ‘... não consigo entrar um ano sem pintar a fachada da minha casa...’. É como uma roupa nova, um vestido novo, como escreveu o cantor brasileiro Caetano Veloso (1942) no catálogo da exposição (Mariani, 2010), ‘... a cidade fica endomingada...’, com referência ao domingo quando as pessoas vestem roupas novas, se arrumam para sair. Nestas ocasiões, geralmente festas religiosas, as casas e suas fachadas expressam a felicidade dos seus moradores. A fachada acaba por determinar a relação que o morador deseja estabelecer com o visitante externo. O estudioso suíço Johannes Itten (1888/1967) escreveu que ‘cada um tem sua própria concepção de harmonia cromática’ (Barros, 2006: 78). Sendo assim, o gosto e o temperamento são duas características relevantes para entender a cor e seus usos nas fachadas das casinhas. Além do elemento arquitetônico, já escrito, a cor e sua combinação revelam certa dinâmica, uma vez que a escolha pode mudar de um ano para outro, a cor da pintura não permanece eternamente, a exceção de alguns casos, mas até mesmo o tempo — o desgaste — dá conta do esmaecimento da cor, o que acaba por transformá-la em outra


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook