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:ESTÚDIO 8

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202 Cardoso, Silvia H. dos Santos (2013) “Anna Mariani e as casinhas nordestinas.”

brasileira começava ou recomeçava a encontrar o seu lugar na história da arte latino- americana. Ao mesmo tempo em que os artistas encontravam espaço para colocar obras de caráter universal no insípido mercado de arte, os fotógrafos começavam a redescobrir a cultura local. É verdade que o interesse pela cultura popular é marcado por um movimento de vai e vem: ora muito valorizada, ora muito desprezada. Contudo, a partir daquelas duas últimas décadas, a cultura popular brasileira passou a ser encarada com maior seriedade e estima. Neste contexto, a fotógrafa soteropolitana Anna Mariani expôs o resultado de inúmeras viagens por sete estados brasileiros — Bahia, Alagoas, Sergipe, Ceará, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte —, não nesta ordem, mas a Bahia, estado de nascimento da artista, foi o primeiro a revelar a beleza das populares casinhas coloridas. O trabalho começara em meados dos anos 70 com fotografias pretos e brancos como anotações e, posteriormente, com os diapositivos coloridos, pois segundo a fotógrafa, a cor das fachadas revelava o universo poético do homem nordestino, sempre lembrado por sua força bruta, à luz de Euclides da Cunha (1866/1909), escritor de Os Sertões (1902). Mariani se dedicou a registrar a paisagem nordestina, mas não o cenário natural, ao contrário, uma paisagem construída: as fachadas frontais das casas. Se o conceito de paisagem é construído em diferentes teóricos, o arquiteto italiano Aldo Rossi (1931/1997) traz a definição de paisagem construída para todas as coisas que são culturalmente criadas (Fortes, 2009). A paisagem da natureza não é exclusiva, encontramos outras paisagens: a paisagem construída é aqui o foco, uma vez que as fachadas das casinhas brasileiras são culturalmente idealizadas, como mostra a Figura 1. A cor como identidade cultural

O ensaio fotográfico de Anna Mariani foi tratado como uma grande novidade no mundo imagético brasileiro, uma vez que as coloridas fachadas já eram conhecidas pelos viajantes estrangeiros e nacionais, mas nunca haviam sido expostas num espaço de arte. A beleza das casinhas atestava a singularidade das fachadas coloridas e denominadas pelo habitante local por pintura. Aquelas pinturas tinham a cal pigmentada como tinta e a sua diluição responsável pelo maior ou menor contraste da cor, ora muito saturada, ora muito suave. Não só a fachada, mas também os ornamentos e os enfeites, conhecidos por platibandas, eram pintados. Estas decorações muitas vezes com desenhos florais e/ou elementos vazados, que lembram os cobogós, elemento arquitetônico que facilita a passagem do ar e também da luz natural e artificial entre o exterior e interior de um ambiente, recebem uma cor diferente. A cor principal da fachada é associada às outras cores, sejam nos ornamentos, nas portas e nas janelas, como na Figura 2.


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