Skip to main content

:ESTÚDIO 8

Page 164

164 Rauscher, Beatriz B. da Silva (2013) “A imagem como oásis: o lugar e a paisagem perdida.”

unidade do SESC. Certamente, Reisewitz considerou o potencial de visibilidade do trabalho ao direcioná-lo para o local de intenso fluxo dentro do edifício, ou seja, o gigantesco átrio, um vão livre do centro da torre do edifício de quatro andares, sobre a piscina. A concepção de Ituporanga levou em conta a conexão com este público (nem sempre atento às artes plásticas), possível pela experiência coletiva associada ao lazer. Em oposição ao espaço institucional convencional, que isola a obra de arte do mundo externo, aqui, o trabalho coloca ativamente essa aproximação. Ituporanga foi instalada por ocasião da inauguração do novo complexo, período das férias de verão, que tornava seu parque aquático de seis piscinas, com capacidade para duas mil pessoas, um especial atrativo. Assim, o local imprime marcas a esse trabalho. Acredito ser o artista sensível a este contexto potencializador de relações e interações público-obra. A janela não seria um dispositivo paisagístico engenhoso na obra sem a função de oferecer espetacularmente o deleite da paisagem aos usuários do espaço e dos eventos que se programam ali. 3. Lugar discursivo: “da consciência; da evasão” Seria a possibilidade discursiva operada pelo sítio capaz de tirar a obra Ituporanga de uma derrapagem no espetacular? Para Kwon, a busca por um engajamento tem entre as suas preocupações a integração da arte mais diretamente no âmbito social, seja para reendereçar problemas sociais urgentes ou para relativizá-la como apenas uma entre muitas formas de trabalho cultural, tratando as preocupações estéticas e históricas da arte como questões secundárias. Expandindo a arte na cultura; borrando a divisão arte /não-arte. Kwon chama de arte site-oriented trabalhos que se caracterizam por uma determinação discursiva, na qual a obra é informada por uma gama mais ampla de disciplinas e se sintoniza com discursos populares. Podemos verificar esses aspectos a propósito da criação da obra: o artista, sobre esse processo, indica a pesquisa histórica realizada para conhecer as características originais — hidrográficas e topográficas — do bairro Belenzinho; sobre os primeiros habitantes do lugar, os índios Guaianases, e sobre o fato de que, em épocas mais recentes, o bairro era área de banhos, de lazer e de desfrute do ar puro. Lugar de “riachos e cachoeiras que desembocavam no rio Tamanduateí” (Reisewitz, apud Ursaia, 2010). Assim, ao remeter ao passado do próprio lugar da obra, antecipa (e orienta) os sentidos e efeitos que o trabalho quer acessar. Aspectos identitários do bairro, tomados de sua história como lugar, sobrepostos ao enquadramento institucional de caráter comunitário, convergem para o discurso eleito pelo artista, que seleciona o conteúdo que pretende gerar. Assim, o passado industrial do bairro, motivo de orgulho pela sua importância econômica, é preterido em favor da ideia de uma arcádia paradisíaca, como lugar


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
:ESTÚDIO 8 by belas-artes ulisboa - Issuu