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:ESTÚDIO 8

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161 Revista :Estúdio, Artistas sobre outras Obras. ISSN 1647-6158, e-ISSN 1647-7316. Vol. 4 (8): 160-165.

Caio Reisewitz, que tem como uma das marcas de sua produção fotográfica a abordagem rigorosa da paisagem natural brasileira. Num primeiro momento, restituir a experiência ancestral da desmesura da natureza parece ser o objetivo principal do investimento poético dessa instalação, intitulada Ituporanga (Figura 1). Veremos de que modo o dispositivo opera na ambiguidade do paradisíaco e melancólico simultaneamente. Para pensar o dispositivo, colocarei em questão os modos com que o artista aciona aspectos diversos do sitio para reconstituir, através da imagem, a experiência da natureza e ir mais além. Considerei como ferramenta teórica os três paradigmas de site-specificity, esquematizado por Miwon Kwon, ou seja, o “fenomenológico, social/institucional e discursivo” (Kwon, 2008:173), noções que se sobrepõe operando simultaneamente em várias práticas artísticas contemporâneas. “Ituporanga” é um vocábulo tupi-guarani que, através da junção dos termos y’tu (“cachoeira”) e porang (“bonito”), significa “cachoeira bonita”. A toponímia brasileira é repleta de palavras em tupi-guarani, assim, nossa geografia, batizada pelos índios, sempre ressoa, melancolicamente, a ideia de um paraíso perdido. Reisewitz tira partido poético dos nomes dos lugares que fotografa, fazendo convergir com as belas imagens de serras, rios e florestas a ideia de natureza intocada e selvagem que tais nomes evocam. A aura do passado está também nas referências que o artista afirma (2010) constituírem seu olhar: a pintura de paisagem dos artistas viajantes europeus do século XVIII e brasileiros do século XIX, e as fotografias de paisagens do século XIX, tanto as da coleção de D. Pedro II como as do fotógrafo Marc Ferrez (1843-1923). Percebo, no entanto, que, para que as belas paisagens façam sentido diante da atual devastação da natureza e para que o artista possa ser absolvido de uma possível acusação de “mero esteticismo”, suas paisagens estabeleceram pontes com o ecológico, mesmo como subtexto de seu discurso. Considero a obra de Reisewitz permeada pelas ambiguidades, expressas por Cauquelin a propósito da função da paisagem como objeto cultural que reassegura a percepção do espaço e do tempo, pois, na atualidade, a paisagem pode ser fortemente evocada nas “tentativas de ‘repensar’ o planeta como eco-socio-sistema”, ao mesmo tempo em que nos leva ao “reconforto de uma paisagem-natureza, abrigo da pureza e refugio” (2007:12). Toda a obra de Reisewitz é assim: tomando partido da natureza do fotográfico, ele coloca as qualidades do visível e do verdadeiro em tensão. Vejo, ainda, que, em Ituporanga, a partir de um determinado dispositivo situacional, o artista irá inflexionar os aspectos do contemplativo em relação ao reflexivo na construção de um site discursivo no sentido de Kwon.


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