116 Costa, Clóvis Martins (2013) “As paisagens obscuras de Lizângela Torres: incursões noturnas como método.”
se torna o lugar por excelência, em pleno meio do qual somos absolutamente, em qualquer ponto do espaço onde nos encontremos. É quando fazemos a experiência da noite, na qual todos os objetos se retiram e perdem sua estabilidade visível, que a noite revela para nós a importância dos objetos e a essencial fragilidade deles, ou seja, sua vocação a se perderem para nós exatamente quando nos são mais próximos (Didi-Huberman, 1998: 99).
2. Ocaso Termos obscuros compõem o repertório conceitual desta pesquisa pela noite enquanto escopo, lugar de prospecção e campo de ativação de sentidos. Noite, Breu, Ocaso e Zona de indeterminação são alguns enunciados que apontam para a dimensão da escrita no trabalho de Lizângela Torres. A paisagem explorada aqui se constitui como lócus do aparecimento dos conceitos. Da criação destes, podemos aferir o grau de intensidade da noite experimentada. Haveria uma relação aqui entre universos heterogêneos, o dentro e fora, a luz e a sombra, o dia e a noite. Nesta zona de embate, está o corpo, anteparo da luz projetada ou instrumento da ação. A zona indeterminada pertence ao domínio do litoral, linha divisória entre o real e o sujeito. Mistura, portanto, de onde emerge a palavra. A escrita seria então a produção resultante desta fricção entre díspares, contato entre o fora e o dentro. Nesta borda indeterminada situada entre a artista e seu campo de ação (paisagem noturna), abre-se o abismo do qual a palavra emerge. Capturado nas incursões noturnas, o termo ocaso, que, segundo Torres, está em processo de delimitação conceitual, apresenta-se como instrumento investigativo para a reflexão sobre o seu trabalho. Este momento crepuscular, onde se dá a transição do dia para a noite, vem a ser a duração da experiência artística na ocasião da exibição, do acesso ao outro. Trata-se, portanto, como nos informa a artista: ...do momento que precede a noite, tensão entre dia e noite; zona mestiça; cruzamento entre diferenças; momento trágico dionisíaco/apolíneo; entre a embriaguez e a razão; aparição da desaparição; presença da reverberação de uma ação ausente. Podendo significar, também, a morte, o fim, o declínio, a ruína, OCASO está diretamente relacionado com a mudança, com o vir a ser outro diferente, indeterminado, impensado (Comunicação pessoal, agosto de 2013).
A apresentação da paisagem noturna, em consonância com a delimitação do conceito operacional ocaso está presente no trabalho intitulado Kínesis (Figura 5, Figura 6). Uma instalação formada pela projeção da imagem da noite em estado de aparecimento, o dia escoando para dentro da noite. O entardecer é capturado em um vídeo realizado no terraço de um edifício, apreendendo uma tomada de 360º. Projetado sobre uma parede na qual foram instalados diversos