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:ESTÚDIO 8

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114 Costa, Clóvis Martins (2013) “As paisagens obscuras de Lizângela Torres: incursões noturnas como método.”

1. A noite proposta Segundo Lizângela, a montagem in situ dos desdobramentos da experiência na noite, promove um campo de investigação onde a procura pela imagem sublinha o caráter indeterminado das suas proposições: O espaço é elaborado para a experiência do fruidor, contando com a ação do público para o assomo da obra. Instalada em um ambiente escuro, a fotografia, projetada, ou através de backlight, ilumina sutilmente o espaço, abrindo rasgos de luz, de forma a incentivar o deslocamento do observador pelo ambiente enegrecido. Banhado por um véu de luz, o corpo do observador se move pelo espaço escurecido, num processo investigativo, em busca de imagens (Entrevista com a artista em agosto de 2013).

Observa-se a intenção de distender a experiência na paisagem noturna por meio de uma situação instalada. As formas de apresentação utilizadas pela artista variam, como que proliferadas pelo seu lugar de origem. Se a noite é o espaço da indeterminação, esta estratégia se releva eloqüente. O outro, que adentra esta noite transfigurada, protagoniza novos acontecimentos obscuros. De certa forma, este sujeito é arremessado ao espaço vertiginoso das forças que compõem a paisagem noturna: espaço do fora, diante do qual o arrebatamento é inevitável. O trabalho Incursões noturnas — Ibiraquera (Figura 3, Figura 4), composto pela captura do deslocamento de um automóvel numa estrada de chão durante a noite, apresenta a experiência do trajeto percorrido nesta zona indiscernível que aparece à frente do para-brisas do veículo. A imagem resultante da iluminação do farol do automóvel parece descolar-se do campo visual, produzindo uma atmosfera densa na qual a experiência se condensa. A paisagem, portanto, torna-se um amálgama do composto sujeito/fora. Evasão dos sentidos no caldo negro da noite. De fato, é no momento do contato com os trabalhos (sejam eles fotografias, vídeos, objetos ou textos) que a noite proposta por Lizângela alcança a espessura necessária para que os afetos adentrem a hora do lobo, ápice da noite, hora intensa, noite abissal. Tony Smith, artista referencial para a pesquisa da artista, relatou que a experiência noturna em uma auto-estrada constituiu-se como um momento revelador, como se a perda dos referenciais seguros da paisagem, ao se dissolverem na escuridão, inaugurassem uma nova concepção de arte. Didi-Huberman comenta esta situação de embate como: ...uma experiência em que a privação (do visível) desencadeia, de maneira inteiramente inesperada (como um sintoma), a abertura de uma dialética (visual) que a ultrapassa, que a revela e que a implica. É quando fazemos a experiência da noite sem limite que a noite


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