Skip to main content

:ESTÚDIO 6

Page 25

3. Identidades

A gravura intitulada «Dans la Paix», datada de 1975, marca a passagem para uma outra ordem de registos onde pontuam mascarados («Sans titre»), bailarinos («Danse Batuki» — figura 8—, «Batukada»), episódios quotidianos(«Personnages avec un bidon de l’eau sur la tête», «Personnage avec un animal» — figura 9), alusões ao carnaval, representações teatrais («Scène Théâtrale») etc., sendo que muitas destas irão assumir igualmente um cunho experimental integrando

25 Revista :Estúdio, Artistas sobre outras Obras. ISSN 1647-6158, e-ISSN 1647-7316. Vol. 3 (6): 20-27.

Viteix falará na sua tese de doutoramento, retomando algumas ideias de ideólogos como Amílcar Cabral — encontra aqui uma forma de expressão que reúne simbolismo e memória histórica, transfigurada plasticamente, num «realismo imaginário, poético» (Teixeira, 1986) Ao mesmo tempo e, observando o conjunto de gravuras que compõem o Cahier, é possível estabelecer um nexo cronológico na sua organização, bipartida entre dois momentos: antes e depois da Independência Nacional. Na verdade poderemos considerar um primeiro ciclo de gravuras que se inicia com a imagem do 4 de Fevereiro à qual se seguem cinco outras, evocativas da guerra de libertação que culminam na gravura intitulada «Dans la Paix» (figura 7) — a qual de resto constitui um estudo para a obra homónima de pintura, datada de 1984/85. Um segundo ciclo integra um conjunto de imagens várias que incluem representações carnavalescas, danças, representações teatrais, cenas do quotidiano, etc., e que, conjuntamente com os símbolos que emolduram algumas delas, não deixam de se enquadrar numa recuperação do património cultural endógeno que, considerado à luz da resistência ao colonialismo, é encarado pelo pintor como uma espécie de cimento simbólico na arquitetura de uma unidade de contornos nacionais. Na gravura intitulada «Dans la Guerre» (figura 4) as figuras hirtas segurando espingardas, junto ao limite inferior da composição (possivelmente a evocação dos soldados do exército português) contrastam com o dinamismo e alterações de escala das restantes figuras que povoam o espaço e que, segurando, lanças, machados ou catanas aludem aos guerrilheiros angolanos, que lutam contra os primeiros. A narrativa heroicizada que domina estas duas gravuras será reforçada pela figuração dos camaradas caídos em combate como por exemplo em «L’Abattu» (figura 5) ou «La Chute d’u Camarade» (figura 6). A primeira representa, através de traços sintéticos a figura isolada do guerrilheiro, abatido, que cai por terra, enquanto na segunda os companheiros se debruçam sobre o camarada morto, numa sobreposição de figuras definida pela trajetória descendente da queda.


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
:ESTÚDIO 6 by belas-artes ulisboa - Issuu