2. O Modo de Ler
Objecto publicado, o livro propõe, à partida, uma leitura individual, por ventura, mística e alheia a cerimónias coletivas. E o teatro, por excelência um espetáculo com público, tem como principal desafio a conquista, a cada ‘função,’ dessa espécie de privilégio de intimidade que acontece entre a imagem da palavra e cada espectador da assistência. Ao entrar na pequena capela estamos no lugar universal do ponto de vista único. O convite ao recolhimento reúne as condições cenográficas que fazem da intimidade uma vivência estética e espacial. Uma vez lá dentro, somos compelidos a uma pose devocional, assim se resgatando, no modo Instalação, a interatividade de um processo de relação entre dois mundos (Féral, 2002) — uma experiência de teatralidade. Da capela com os genuflexórios à figura do Book of Hours ali pousado, a trajetória para um espaço virtual é uma experiência no cenário onde o Livro de Artista nos convida à articulação do espaço e do tempo, como figuras na representação de uma narrativa. Anulada a distância entre a peça e o espectador, esse espaço semiotizado acolhe a experiência de um processo teatralizado. “In this instance, space is the vehicle of theatricality. […] It is the simple exercise of watching that reassigns gestures to theatrical space” (Féral, 2000: 95). Necessitamos estar disponíveis e cúmplices para compreender o sentido do que nos é proposto organicamente, emocionalmente e intelectualmente, dando ao tempo um tempo largo para a experiência do advérbio. “More than a property with analyzable characteristics, theatricality seems to be a process that has to do with a ‘gaze’ that postulates and creates a distinct, virtual space belonging to the other, from which fiction can emerge” (Féral, 2000: 97). Na realidade, estamos agora de posse dos elementos formais e materiais que
245 Revista :Estúdio, Artistas sobre outras Obras. ISSN 1647-6158, e-ISSN 1647-7316. Vol. 3 (6): 241-246.
escrever e focar; os papéis e os cristais e os algarismos. Está situado no tempo que é o seu). [Voltando atrás] — Par (interpela com uma W capital): —‘’Why do angels have wings if they don’t know how to fly?’’/ ‘’What can I say?’’/ I know that they are never in heaven, and that they do not belong on earth. / Perhaps their wings are meant only to show us that they do not really exist; that they belong nowhere. / I once met a walking angel. He would always walk away from me.’’(Maia, 1992: 44,45) [Ao lado] — Impar (mantém-se silencioso; uma asa expande-se, espessa e texturada, como uma curva esboçada sobre uma mancha vermelha e laranja na superfície do papel.