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:ESTÚDIO 6

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244 Bronze, Manuela (2012) “Um Teatro Intimista: ou o jogo entre imagem e palavra no livro de artista.”

Horas protegidas pelo desenho das ordens clássicas da arquitetura, para um espaço que se pretende de construção sólida, protetora e detalhada. Desde sempre projeto para um ambiente a habitar. Na fronteira entre interior e exterior, o olhar reclama o mundo, entre janelas e frontispícios. Perscruta capiteis, cúpulas e contrafortes. Divaga entre colunas. Separando as horas, o algarismo que ordena a denominação da sequência ocupa toda a página, vazando, em itálico, um fundo neutro. O corpo visual deste objecto tem uma orgânica própria para as tarefas do pensar e do fazer: um miolo de imagens e palavras — mancha gráfica — aguarelas, desenhos, grafismos, justaposições de imagens, de papéis e de objetos (posteriormente fotografados) e caracteres, obviamente, familiares ao Times, com um tamanho de letra constante. O jogo positivo/negativo mantém-se em cada página. A letra capital, maiúscula, é consistente e solidária com a imagem total que releva de subdivisões rectangulares arquetípicas. O vermelho visita as páginas, prudentemente, para instruir o nosso olhar. Neste livro ‘’quando tudo quanto ele pode fazer é dar-nos desejos’’ (Proust, 2003: 35), saem das palavras personagens e engendramos uma contracena: [Nonas] — Par (aquele que há muito vive o mundo. Austero, o seu figurino confunde-se com o espaço, e a voz quente e colocada, afirma-se em vários registos tímbricos, definidos pela única maiúscula. Apraz-lhe propor jogos antinómicos, debitando frases que roçam aforismos. Fala do tempo, o tempo todo e de como o tempo leva a durar, a configurar, a dividir, a ocupar, a partilhar, a transcrever, a traduzir, a escrever, a lembrar, a percorrer, a contar, a ver, a ligar, a acontecer, a esconder, a amar, a imaginar e a medir, depois das palavras se soltarem do tinteiro.) —‘’I kept all your letters in an inkpot. / I forgot all their words and how to get them free. I feel they are constantly searching for a window from where they can see the night coming. / They returned to the place they belong to: the inner place of my memory, the red corner of my paintings. (Maia, 1992: 46, 47) [Ao lado] — Impar (o da expressão tumultuosa, ensaiada em velaturas e sobreposições empastadas. A cor da sua roupagem invade a superfície do suporte e a fotografia revela transparência e opacidade nos vermelhos do tinteiro e da pena; um outro tinteiro faz de conta que pertenceu a Pandora. A cada ‘deixa’ de Par uma resposta pronta, serve-se de todos os meios próximos. Genuína e rebelde, revela alguma ingenuidade. Impar é um recolector. No bulício dos dias, manipula as cores, as linhas, os caracteres, as contas, os instrumentos para desenhar, medir,


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