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:ESTÚDIO 6

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1. O Livro

Constam do livro: Introdução, Índice, Calendário, Separadores, Textos e Imagens das Horas. O Calendário compõe-se tipograficamente de modo tão extremo como a diferença entre o dia e a noite. Para todos os dias de cada mês, opõe-se a um fundo negro o recorte branco dos algarismos. E quando os dias se somam em dezenas, subtilmente, na noite que sonha a vida, as estrelas são amarelas, vermelhas, azuis, e uma é laranja para o dia de fevereiro que os bissextos deixam acontecer. Nada sabemos sobre o novo ano; à primeira vista, como se a contra-tempo, os dias dispõem-se em cada linha dos doze horizontes. Depois, as páginas ocultam e desvendam a sequência das horas: as pares recebem o texto e as ímpares a imagem que ilumina as divisões do dia. Para marcar um ritmo, os separadores anunciam as Matinas e prosseguem com Laudas, Primas, Terças, Sextas, Nonas, Vésperas e Completas, as oito divisões onde cabem as horas dos dias que Gil Maia nos propõe. Este Book of Hours “is not meant to recreate the ancient model. […] It only has two parts. A calender (always a challenge for celebrations), and a new presentation of the sequence of the hours. This sequence is similar to the one used in the primitive Book of Hours but the hours are as pious as ludic” afirma o autor no prefácio. (Maia, 1992: 5)

243 Revista :Estúdio, Artistas sobre outras Obras. ISSN 1647-6158, e-ISSN 1647-7316. Vol. 3 (6): 241-246.

não rejeita a sua inerente dimensão lúdica. Pousado no altar dourado, um intrigante livro vermelho, em pé, com uma porta, faz-se maqueta de cenário para outra representação. Frente ao altar, lado a lado, dois genuflexórios, iguais, convidam o espectador a folhear, individualmente, o seu Book of Hours. O altar, lugar ancestral de rituais sagrados, era na Idade Média para muitos o ponto do todo da arte dramática, e o Livro de Horas, manuscrito, iluminado e personificado, era para alguns o compasso da rotina diária. Folhear este livro neste lugar é ser parte de um processo que nos compele a sentir o espaço real como ficcional. Página a página, a encenação do quotidiano desenvolve uma imagética do tempo que já não reconhecemos no Livro de Horas mas onde as referências contemporâneas constroem, como diria Didi-Huberman, uma espécie de objecto dialético: ‘’Une chose à double face, un battement rythmique. Comment nomer cet object, si le mot ’’anachronisme’’ ne qualifie éventuellement qu’un versan de son oscillation? ‘’ Gil Maia nasceu em Vila do Conde em 1950. Vive e trabalha no Porto. Arquiteto, licenciado pela ESBAP, trabalha sobretudo no domínio das Artes Gráficas. Completou a sua formação académica com o Master of Arts in Graphic Design pela Central Saint Martin’s College of Art & Design em Londres e Doutorou-se em Design de Comunicação pela FBAUP. É docente na ESE do IPP .


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