239 Revista :Estúdio, Artistas sobre outras Obras. ISSN 1647-6158, e-ISSN 1647-7316. Vol. 3 (6): 234-240.
aprendiz de tipógrafo, profissão a que se dedicou até 1908, data em que passa a trabalhar como paquete no jornal O Século. Em 1931 conhece Manoel Celestino Alves. Em 1935, é contratado como vigilante do museu da Fundação Tavares Leite, em Lisboa. Em 1940, acumula funções de vigilante na Exposição do Mundo Português. Em 1945 inscreve-se nas aulas de desenho do Círculo Artístico e Cultural Mário Augusto, participando na exposição anual promovida por essa colectividade. Depois de lhe ter sido diagnosticado um grave problema pulmonar, aposenta-se em 1970, decidido a aproveitar o tempo que lhe resta para viajar. Viúvo, pai de três filhas e avô de um neto, morre em viagem de recreio para a Madeira no naufrágio do navio Orion, com 70 anos de idade. Do seu espólio constam fotografias pessoais e de acontecimentos da época, recortes de jornais e de revistas, vários números do Século Ilustrado, alguns exemplares de literatura de cordel, fichas de inventário, cartões de visita, muitos lápis de grafite toscamente afiados, documentos oficiais e folhas dispersas dos cadernos de um diário profusamente ilustrado. Nomes que identificam os retratos. Caligrafias que laboriosamente traçam os caprichos da memória que nasce na escrita das palavras. Desenhos eruditamente inscritos no ofício e nos artifícios do Desenho. Fotografias de pessoas, coisas e lugares que traçam perfis e semelhanças fazendo deslizar os significantes para melhor inventar o mundo em que nos reconhecemos. Tudo isso em discretas alusões à vida do autor, às vidas que ficaram para a história e às vidas que consubstanciam as estórias, num incessante viver entre a realidade e a ficção. O livro de artista delega no seu autor todas as operações da sua construção, desde a recolha, apropriação, seleção e manipulação dos materiais, à composição, paginação e, muitas vezes, edição. Os livros de artista de Pedro Saraiva nele delegam também o plano de uma obra em que as múltiplas narrativas de um tempo histórico comum e de encontros ocasionais entre os artistas que os habitam são sustentadas pela presença de desenhos preciosamente trabalhados nos seus percursos pela paisagem, pela figura humana ou pela natureza-morta. E se são estes desenhos que edificam um sistema de relações solidárias entre os artistas, ao qual não é alheio o conceito de coleção e o de penumbrosa intimidade que lhe está associado, é do traçado das suas vidas com espaços vazios, como diz Barthes, que eles nos chegam como significantes de vidas abertas à espacialidade dos desenhos e ao espaço tocado pelas palavras e ocupado pelas letras ou pelo vazio que as aguarda. Simultaneamente sinal de um aparecimento e de uma dissolução, os nomes conservarão sempre traços dos rostos que vêm de vidas anteriores e nos seus espaços vazios, como gabinetes prestes a serem ocupados por novas coleções ou como molduras prontas a cercar um novo rosto (Figura 5), outros toques e