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:ESTÚDIO 6

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Vidas de papel Esse lápis que não larga o papel. (Saraiva, 2009, n.p.)

Manuel dos Prazeres Dias Linares (Figura 1) nasce em Santa Marta de Penaguião no dia 24 de Agosto de 1898. Diplomado em Arquitetura pela Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa, em 1927 ingressa nos Serviços Técnicos da Câmara Municipal de Lisboa onde cessa funções em 1933 para trabalhar num ateliê de arquitetura. Em 1940 colabora nos projetos de arquitetura de interiores para a Exposição do Mundo Português. No ano seguinte lecciona no ensino técnico oficial mas por motivos políticos e na sequência da sua detenção pela PVDE é exonerado em 1945. Participa nas I e V Exposições Gerais de Artes Plásticas promovidas pela SNBA. Em 1948 viaja para S. Tomé onde trabalha com o desenhador António Maria Codina. De regresso a Lisboa em 1949, participa com o escultor Max Rog no concurso de maquetas para o monumento ao Cristo-Rei em Almada. Entre 1954 e 1960 trabalha como arquiteto, em Angola, de onde regressa fixando residência na sua terra natal. Casado e pai de cinco filhos, morre em Lisboa, com 70 anos de idade. Do seu espólio constam muitas fotografias, quase sempre acompanhadas de observações e memorandos, centenas de notas em papéis dispersos, algumas maquetas de casas coloniais e desenhos de grandes dimensões onde vagas estruturas arquitectónicas obsessivamente desenhadas e sempre em ruínas são traçadas

235 Revista :Estúdio, Artistas sobre outras Obras. ISSN 1647-6158, e-ISSN 1647-7316. Vol. 3 (6): 234-240.

traços que brevemente as grafam como acontecimento. Se o traço é a marca deixada num suporte pelo gesto que traça e se ausentou, traçar é também esboçar e compor a passagem de alguém e a sua trajetória com a evidência do que existe, como vestígio evidente do que existiu ou como traço-síntese das operações que inauguram uma existência. Pedro Saraiva é o autor desses traçados que sob a forma de narrativas também para ver, porque a evidência nada mais é do que pôr diante dos olhos, fixam os significantes que fazem acontecer os artistas numa sucessão de biografemas que, para Barthes, são os traços biográficos descontínuos, particularizados, dispersos, construtores de ‘uma vida com espaços vazios’. É neste sentido que, a partir dos conceitos de traço e de biografema, se determinará como nos livros de artista de Pedro Saraiva, o livro e o artista se confundem nas suas múltiplas e intermináveis edições porque ele sabe que o significante, como o modelo de que se constitui o referente, será sempre outro na próxima sessão.


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