Conclusão
É feito desses dois movimentos, da extensividade dos deslocamentos e da complementar intensividade da experiência num único lugar, o único “livro de artista” de Daniel Acosta, intitulado Comfortablescapebook. Brincando com as dimensões e com as características dos livros vigentes no tempo dos
227 Revista :Estúdio, Artistas sobre outras Obras. ISSN 1647-6158, e-ISSN 1647-7316. Vol. 3 (6): 222-228.
numa espacialidade culturalmente demarcada, espaço que já tensionava o espaço natural: o homem europeu era, diferentemente do homem americano, homem barrado pela natureza — que o atemorizava. Particularmente, o território brasileiro, único nas três Américas de tradição e corte cultural português, era um vasto lugar de vivência e de experiência para os homens. O Brasil é país de proporções continentais e de diversificadas fronteiras terrestres, para além de extensa linha litorânea. Extensa linha compreendida como linha de perfil, se pensarmos o território nacional como um objeto, com extensão de 7.408 km, redobrada em saliências e reentrâncias, de características geológicas e configurações as mais variadas, alternando praias, falésias, dunas, mangues, recifes, baías, restingas... O Brasil, visto do mar, é vário e sedutor, na variação de suas paisagens. A presença da exuberância natural foi a grande marca do Brasil como lugar (o verde bandeira) até o relativamente recente século XIX, quando a vida urbana na Europa, concentrada nas cidades, já se demarcava pelas conquistas tecnológicas da Revolução Industrial. Os novos modos culturais, configurados pela vida urbana, são modos moldados pela experiência repetida e cotidiana sobre certa territorialidade construída, a qual por sua vez sobredetermina o homem que nela habita. Numa relação intermitente entre homem e lugar, homem e as coisas do lugar, ora o homem constrói a casa, ora é habitado pela casa, ora pavimenta uma rua, ora tem seus passos ritmados pelos ladrilhos com que a ladrilhou, ora escava um percurso viário e o calça com paraparalelepípedos, ora as pedras com que calcetou o caminho lhe sugerem sentidos novos. A relação entre homem e lugar, em qualquer das distintas circunstâncias, seja o “lugar pura natureza” seja o “lugar culturalmente construído”, se fundamenta pelo estabelecimento do homem num “território domesticado.” Território de limites variáveis, adequado ergonomicamente a cada homem. Cada um desses lugares, cada uma dessas áreas territoriais, tem em seus limites um particular “horizon d’attente.” Um horizonte a distância: a paisagem. A ideia de paisagem é codependente do estar num lugar, do habitar um lugar e não outro, e do deslocamento por entre lugares, com o estranhamento próprio à experiência daquilo de que se é distinto. A ideia de paisagem sempre pressupõe certa distância.