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:ESTÚDIO 6

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226 Requião, Renata Azevedo (2012) “O livro inquietante de Daniel Acosta: a viagem, a paisagem, e a leitura.”

de laminados: revestimentos que servem como segundas peles para objetos/ móveis feitos de madeira menos nobre, ou como impermeabilização para móveis de cozinha e de banheiro (seu pai maceneiro o introduziu nas artes da marcenaria). Os laminados são materiais que, afinal, mascaram a construção original, homogeneizam seu acabamento, retirando do objeto manufaturado as marcas processuais. Daniel Acosta é artista que se interessa profundamente pela superfície das coisas. Aqui ele nos oferece um livro, em cujo miolo vemos quatro seqüências de páginas — os quatro cadernos — com cenas de paisagens (de tecido usualmente utilizado para revestir almofadas para cadeiras), e cuja espessa e impermeável capa é feita do tecido usualmente utilizado para forrar estofamentos de veículos. Continuamos portanto no plano das superfícies e dos revestimentos. O deslocamento da leitura/manuseio do livro se dá por duas vias: sentados em casa confortavelmente contemplamos as cenas/paisagens naturais, impressas em série pela indústria da tecelagem; circulando de automóvel, expostos ao tempo e a suas intempéries, contemplando as cenas/paisagens naturais, precisaríamos da proteção do tecido impermeável. Se a capa do livro replica a capa impermeável dos assentos de veículos (remetendo à densidade de nossa densa flora), o miolo do livro replica o forro das almofadas que, por sua vez, replicam as paisagens naturais. Além disso: em casa, vemos nas cortinas e nas almofadas cenas de paisagens, que nos chegam também recortadas pela janela do carro em deslocamento. Em casa estaríamos protegidos das intempéries; de carro circularíamos indefesos em meio a um “continuum” natural. Com tais características físicas, o livro de Daniel Acosta reúne o narrador artesão, aquele que, sedentário, narra a partir da experiência e da segurança do lar, seu lugar, ao narrador marinheiro, o viajante capaz de contar aos outros a infinita e inesgotável riqueza das diversas paisagens conquistadas (Benjamin, 1987). Como se o artista/autor reeditasse sob o selo Stellamaris os dois modelos de narradores de Walter Benjamin. Cada lugar forja o seu universo

Até o século XV, a América era uma grande região de “pura natureza”, lugar onde cada homem, vivendo comunitariamente, em seu cotidiano desenvolvia ações coletivas, em profundo equilíbrio com o “lugar pura natureza”, ações repetidas pelos membros de sua comunidade, ao longo dos séculos. Assim, numa mesma região da terra, num mesmo território, homem e lugar estiveram em “equilíbrio natural”. A América era lugar de profusão natural, enquanto europeus já viviam a experiência da vida em cidades. A vida do homem americano acontecia num “lugar natural”, enquanto a vida do homem europeu se construía


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