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:ESTÚDIO 6

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223 Revista :Estúdio, Artistas sobre outras Obras. ISSN 1647-6158, e-ISSN 1647-7316. Vol. 3 (6): 222-228.

Ambas as ações, o narrar e o representar, transpassadas pelo modo como os homens ocidentais abandonaram o nomadismo em prol da fixação e da sedentarização nas cidades, onde constróem suas moradias, estão na base do que, a partir do livro, aqui se considera. No livro Comfortablescapebook, cada página é feita de cortes específicos em peças de tecidos antigos, vendidos a metro nas lojas do ramo, cuja padronagem com “paisagens” era muito utilizada no Brasil, nas décadas de 60 e 70. Numa época em que as máquinas da indústria textil já tinham atingido alto grau de engenho (cada máquina produzia muito mais do que o produzido pelas 200 pessoas originalmente substituídas pela revolucionária “spinning mule”, ao final do século XVIII), nas casas de trabalhadores da classe média brasileira, tal padronagem, de tecido rústico, pouco maleável mas leve, era utilizada tanto para forrar almofadas, de sofás e poltronas, quanto para fazer cortinados, encobrindo a luz excessiva advinda das janelas, ou, durante a noite, complementando a decoração das salas, trazendo a “paisagem exterior” para o lusco-fusco do interior das casas. Este livro, que é portanto um “livro de pano”, tem o seu miolo feito de mais de quarenta páginas que são recortes (cujas medidas, 32cm X 25 cm, têm como padrão de referência a folha A4) nas peças de tecido para cortinados (e revestimento de almofadas), recortes enquadrando as paisagens/cenas naturais — nas quais não se vê nenhuma figura humana. A cobertura, capas e lombada, é feita de espesso e tramado tecido impermeável, utilizado para revestir assentos de automóvel, entre o tom verde-musgo e o tom verde-bandeira (verde da bandeira brasileira, verde do estandarte nacional, símbolo do território brasileiro). Somos atraídos pela intensidade do verde e pelo espesso da trama. Se há desenho, o desenho ali é feito apenas da ortogonalidade dos espessos fios, a nos lembrar do processo envolvido na manufatura da tecelagem. Desejamos tocar no livro, desejamos sentir o pano. Desejamos dactilograficamente penetrar no livro cuja cobertura é feita de tecido impermeável — talvez numa referência, no primeiro deslocamento, à impenetrabilidade de nossa mata virgem, o verde do estandarte. O verde absoluto da cobertura tramada apresenta, na lombada (“isto é um livro,” não esqueçamos), o título, Comfortablescapebook, em “caps lock,” bordado por máquina industrial, em linha amarelo-dourado, ladeado pelo nome do artista/autor/narrador, Daniel Acosta, acompanhado mais à direita, pelo nome da fictícia editora Ed. Stellamaris. Nome do artista e da editora em tamanho menor que o do título, ainda que todos em “caps lock,” garantem ao título certa hierarquia na leitura: é o primeiro à esquerda, e certamente é a palavra-nome de maior visibilidade quando o livro é “visto a distância.”


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