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:ESTÚDIO 6

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Matos Pereira, Teresa (2012) “O Cahier de Linoléum, de Viteix. História, ideologia e pesquisa plástica.”

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2. História e Ideologia

Numa pequena nota introdutória ao Cahier de Linoléum Viteix informa que a gravação de pequenas placas de linóleo se inclui em processos de trabalho anteriores à presente edição e que estas adotam duas naturezas distintas: por um lado consistem em experiências diretas e por outro, integram um espetro mais alargado que abrange a pintura, assumindo-se, nas suas palavras, como «sínteses de trabalho» Este caderno reúne assim um conjunto de gravuras que «sobreviveram» às deslocações do pintor para o exterior do seu país — uma vez que grande parte da sua obra gravada se havia perdido — pressupondo uma prática continuada principalmente durante a década de setenta, ao mesmo tempo que assinala a importância desta expressão no conjunto da sua obra plástica. Se a gravação de imagens sobre suportes diferenciados é uma prática corrente nas expressões plásticas dos grupos etnolinguísticos que compõem o tecido sociocultural de Angola, abrangendo objetos de uso corrente, arquitetura, escultura, etc., o facto é que técnicas como a xilogravura e o linóleo conheceram, um primeiro impulso, ao nível do ensino formal, com a sua introdução de um curso de Pintura Decorativa no final da década de 50 do século XX na Escola Industrial de Luanda, onde se teria divulgado e praticado a gravura em linóleo. Mais tarde após a independência nacional foi criada a Oficina Experimental de Gravura onde Viteix viria a desenvolver esta forma de expressão, a par com a formação em conjunto com artistas cubanos que aí viriam a desenvolver uma ação no ensino. Será igualmente no âmbito da ação conjunta do artista e do professor que surgirá uma parte substancial das gravuras que integrarão o cahier de linóleum, editado posteriormente em Paris. No prefácio do Cahier, Luís Silva refere que a obra de Viteix em geral, e este conjunto em particular, se situa num enquadramento mais vasto da luta de libertação nacional dos povos africanos, entendida na perspetiva de Amílcar Cabral, ou seja, a luta de libertação como ato de cultura. Na verdade o próprio Viteix não deixará de afirmar em vários momentos a importância da cultura em geral e das artes em particular como elementos de consciencialização política e cívica, atribuindo ao artista um papel atuante, preconizado pelo engajamento político. A arte, assim considerada, não deixará de expressar o confronto entre passado e presente, com vista a produzir uma rutura com o legado colonial, por um lado, e por outro contribuir para cimentar uma unidade identitária de contornos nacionais. No âmbito desta consciencialização, a utilização de técnicas de reprodução de imagens assumem uma importância acrescida já que, como lembra o pintor, “ nas lutas para nos libertarmos de Portugal, utilizamos muitas


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