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:ESTÚDIO 6

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O curioso é que um pintor como eu, considerado “comercial” e retrógrado pelo meio, seja tratado como “difícil” ou inabordável pelo público, que foge com aflição do meu trabalho. Há quem o leve “à experiência” e o devolve à galeria (Batarda, 2009:17)

Surgem depois os longos títulos já referidos (abordados mais à frente) e há ainda lugar para uma intervenção/conversa do crítico Detlev Schneider, personagem criada por Eduardo Batarda. Esta é, do princípio ao fim, pontuada pela ostentação de uma inteligência acutilante e cáustica quanto baste, não deixando (como era manifesta intenção do pintor) de ‘entreter e divertir’ (Batarda, 2009: 7). Como catálogo que também é, o livro apresenta reproduções das pinturas expostas na já referida exposição do CAMB. Resumindo, o que nos leva a sugerir a possibilidade de considerar esta publicação como Livro de Artista e não um mero catálogo, é essencialmente o seguinte: o livro foi escrito pelo artista na sua totalidade e apresenta três obras autónomas: os dois títulos e a entrevista ficcionada. 3. Dois títulos

Quanto aos títulos de duas pinturas que Eduardo Batarda pintou em 2009 (figuras 5 e 6), podemos dizer que, de tão longos e ricos, são passíveis de serem considerados obras de pleno direito. Estes dois títulos aparecem no livro Eduardo Batarda de 2010 e, a fim de termos uma ideia da sua natureza literária, podemos dizer que um deles começa na página 23 e termina na página 29 e o segundo começa na página 31 e estende-se até à 37. Ainda que estes dados possam não representar muito mais do que apenas as inusitadas dimensões dos referidos títulos, podemos desde já adivinhar que estes vão muito além do que habitualmente se espera de um título. Nestas duas intervenções, Batarda recorre à sua reconhecida erudição e debita um interminável número de referências, da alta e da baixa cultura, de modo a apresentar ao espectador um atlas do que pela sua cabeça passou durante a execução das referidas pinturas. Poema, colagem, título, seja qual for o termo escolhido para tentar enquadrar estas divagações, elas permanecem inclassificáveis. Será, porventura, essa impossibilidade de classificação que lhes eleva o estatuto e as coloca, ainda que num desequilíbrio permanente, no limiar do que

167 Revista :Estúdio, Artistas sobre outras Obras. ISSN 1647-6158, e-ISSN 1647-7316. Vol. 3 (6): 162-168.

qual o autor passa em revista a sua carreira, empreendendo uma viagem pelas obras expostas, não deixando de tecer duras críticas tanto a si mesmo e ao seu trabalho, como ao mundo da arte no qual este se desenvolveu. Esta passagem constitui um bom exemplo dessa postura:


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