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Antes de entrarmos na discussão das referidas obras, parece-nos conveniente fazer uma sucinta abordagem à noção de Livro de Artista. Para tal, enunciaremos dois artistas que, no decorrer das respectivas carreiras, recorreram ao Livro de Artista como meio de expressão.
2. Dois Livros
Os livros que trazemos a discussão encontram-se separados cronologicamente por cerca de trinta e sete anos: o primeiro, O Peregrino Blindado data de 1973 (figura 3) e o segundo, Eduardo Batarda, de 2010 (figura 4). Apesar de ambos terem sido publicados pela galeria que representa o artista (Galeria111), nenhum dos dois é catálogo ou livro de arte. O segundo cumpre também estas duas tarefas, mas passa a ser mais do que isso precisamente pelo facto de nele conter intervenções de cariz literário da autoria do próprio artista. O facto de qualquer um dos dois livros terem sido impressos por processos mecânicos e facilmente reprodutíveis, a aliar à entidade que os editou, pode levantar algumas dúvidas quanto à sua natureza, pois é mais comum uma galeria
Revista :Estúdio, Artistas sobre outras Obras. ISSN 1647-6158, e-ISSN 1647-7316. Vol. 3 (6): 162-168.
1. Livros e artistas
Não descartando a possibilidade da existência de outras interpretações, parecem-nos ser essencialmente duas as actuais classificações da natureza do Livro de Artista: temos, por um lado, os investigadores que consideram que um Livro de Artista deve ser passível de ser reproduzido e/ou editado sem limitações, excluindo desta forma os livros produzidos por processos artesanais. Segundo estes autores, o que o artista diz num Livro de Artista não pode ser dito de outra forma ou por outro médium. Entre os investigadores que defendem estas posições encontram-se Anne Moeglin-Delcroix, Ulisses Carrión, Clive Phillpot, entre outros. Um bom exemplo deste tipo de obra parece-nos ser Twentysix Gasoline Stations, obra datada de 1966 e da autoria do pintor Ed Ruscha (figura 2). Esta obra é, por muitos, considerada pioneira no universo dos Livros de Artista. Por outro lado temos quem defenda que os Livros de Artista estão mais próximos do livro-objecto, apresentando-se quase sempre em edições muito reduzidas ou mesmo únicas. Como diz José Tomás Féria “No livro-objecto a narrativa literária é substituída por uma narrativa plástica; a estrutura livro dá lugar à estrutura plástica, nascendo uma outra forma expressiva” (Féria, s.d.). Stephen Bury considera mesmo que os Livros de Artista “são livros, ou objectos com a aparência de livros” (Bury, 1995). Os livros produzidos pelo pintor Anselm Kiefer encontram-se nos antípodas dos da autoria de Ed Ruscha e, consequentemente, mais próximos desta noção de livro-objecto (figura 3).