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:ESTÚDIO 5

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98 Sacramento, Nuno (2012) “Tropicalteridade.” Revista :Estúdio. ISSN 1647-6158. Vol. 3, (5): 98-99.

Tropicalteridade NUNO SACRAMENTO Conselho Editorial

Num dos muitos e atuais reality shows em que os concorrentes mostram os seus talentos – cantando, cozinhando, costurando – quatro jovens adultos são convidados a cantar em grupo. Durante o ensaio, tudo corre bem, e enquanto grupo eles não perdem uma nota. Ainda assim, a voice coach que lidera o ensaio, comenta com assertividade: “Vocês cantam belissimamente juntos, mas ninguém está a sobressair. Se quiserem avançar neste concurso, terão de cantar bem em grupo, fazendo sobressair ao mesmo tempo o vosso valor individual.” Esta é a grande tensão inerente a vida do indivíduo em grupo. E importante aferir que esta vivência não pressupõe a anulação da individualidade, mas que deve ser constituída por pessoas que se afirmam pela sua diferença, diferença esta que potencia a qualidade do coletivo. No referido programa as pessoas apresentam-se como artistas, e aqui faço a ligação com a revista :Estúdio, e com o congresso CSO’2012. Este congresso e revista emergem do contexto artístico universitário, que se alicerça na acentuação exacerbada da subjetividade. São anos dedicados ao desenvolvimento de ideias e linguagens próprias, preparando o aluno não somente para um mercado de trabalho, mas principalmente, diria eu, para a afirmação subjetiva no coletivo. A individualidade que advém desta construção é densa, opaca, e não será facilmente extinguida. As opiniões são fortes, fruto de leituras, debates, bem como de formas subtis de ativismo. O resultado desta conjugação de subjetividades é crucial para o funcionamento de uma sociedade avançada pois gera uma dimensão pública, pluri-vocal, com nuances, pequenas resistências e marcas de memória. A escola de arte, apesar da crise que atravessa na sua confluência com a ideologia neoliberal - na qual a arte não vale por si, mas sim pelo estímulo que provoca na economia, no turismo, no consumo - continua a ser um dos bastiões do desenvolvimento de uma identidade e personalidade complexas, que não pode ser destilada em mera faceta essencialista. O indivíduo enquanto sujeito, com capacidade crítica e poder decisor, é uma preocupação para quem quer hegemonizar, para quem quer propor a sociedade como algo


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