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susceptível de ser ocupado, o espaço em si onde se pode guardar os sentimentos, o imaculado, o branco). O autor faz, assim, uma ligação entre o espaço (branco/ imaculado) e a matéria (negra/maculada); faz uma conciliação entre a potência (mental/o suporte à espera de receber uma intervenção, o branco) e a respectiva actualização (reconstrução/recriação das memórias pelo desenho negro). Segundo esta argumentação, num paradoxo aparente, o autor faz uma iluminação intelectual (em que a criação do desenho é uma forma de pensar o sentimento) eliminando a luz com a sombra negra, isto é, racionalizando a emoção, transformando-a em imagem comunicante. A razão, portanto, assume o papel de sombra negra, que põe ordem ao flutuar das emoções instintivamente libertas. Mas o autor não deixa de ter aquelas emoções; antes desprende-se delas, para que outras ocupem o seu lugar, tentando compreendê-las, dando forma aos sentimentos no fenómeno da consciência, ou seja, tornando as emoções consciencializadas, É assim a dinâmica da relação dialéctica sujeito-meio (-sujeito). A razão aqui não funciona como ordenação abstracta da realidade, mas como organização universalizante da mesma. Neste Desenho apresentado, a sombra é a materialização da energia espiritual, é a possibilidade de o autor (como ser individual) circunscrever a realidade cosmogónica (a que pertence como partícula de um sistema) num tempo e espaço cujos limites são a forma desenhada; e sendo esta o sentimento veiculado por meios racionais, porque materializados e circunscritos, mas não racionalizados no sentido de os opor à sensibilidade. Mais do que a dicotomia, neste Desenho, percebe-se uma dialética entre os

Revista :Estúdio. ISSN 1647-6158. Vol. 3, (5): 55-61.

Figura 4 – Jaime Silva, desenho formato A5, datado de 24 de Fevereiro de 2009. Caderno de Sombras nº. 11, tinta gráfica sobre papel.


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