Skip to main content

:ESTÚDIO 5

Page 56

Rodrigues, Luís Filipe Salgado Pereira (2012) “O Desenho como iluminação do sentimento e a sombra como eliminação da persona, num processo de individuação (do Desenho) de Jaime Silva.”

56

Introdução

Em arte, toda a conexão de coisas tem como efeito/fim harmonizar as realidades, repondo-as no sistema em que sempre existiram originariamente na Natureza, recriando esse sistema natural num sistema mental do autor. Em tudo isto, a intersubjectividade no contexto biunívoco do diálogo entre dois artistas é basilar. É nessa condição que me posiciono para a análise do Desenho de Jaime Silva. Na situação de observação, em contacto com (os desenhos d)o autor, recriou-se o sistema ontológico, adormecido na realidade instintiva em que vivemos e que vamos abandonando em sentido contrário ao do encontro da realidade intelectual. Jaime Silva licenciou-se em pintura na Escola Superior de Belas Artes do Porto em 1973. Foi membro fundador do grupo Puzzle, em 1975. Foi Bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian em Paris, 1977 e 1978. Foi professor de Pintura no AR.CO entre 1983 e 1987, Lisboa. Desde 1987, é o professor responsável do Curso de Pintura da Sociedade Nacional de Belas Artes em Lisboa. É Director artístico da Galeria Municipal de Montijo desde 1999. Remetendo-nos ao título da exposição – Cadernos de Sombras – expor-se-á a análise deste grupo de desenhos, os quais, pela unidade consolidada, serão designados por “o Desenho” (Figuras 1 a 5). A sombra é, segundo C. Jung (2009), o reduto daquilo de que não gostamos, aquilo que nos deixa inconfortável e que reprimimos, mas é também um depósito de energia instintiva e uma fonte de energia criativa. Noutra ordem de abordagem, na realidade da percepção, a sombra é um indício de uma realidade, e nunca a realidade. Mas estes conceitos, quando referentes à psicanálise, serão entendidos segundo as definições de C. Jung (apesar de, por vezes, serem associados a outra ordem de abordagem). Mais propriamente, de acordo com C. Jung, entendemos aqui que a sombra é a realidade que a persona oprime; uma realidade que, à medida que vai sendo descoberta/consciencializada, dá lugar à aproximação do sujeito ao seu self, à verdade integral do eu. Nesta óptica, a sombra pode ser, realmente, o indício da verdadeira realidade. E esta, por sua vez, quando transformada em máscara, ou melhor, persona, estabelece-se como o indício da verdadeira sombra: uma persona forte indicia uma sombra densa. Não se pode ignorar que este Desenho, de Jaime Silva, inclui figuras, mesmo que, muitas vezes, escondidas nas sombras, e das quais apenas se vislumbra o aspeto. Aqui, as figuras contextualizam-se na recorrência aos arquétipos, que são, na concepção de C. Jung, formas sem conteúdo que servem para organizar ou canalizar o material psicológico. É neste contexto analítico que se pretende abordar o Desenho de Jaime Silva. Todavia, o desenho tem uma identidade que nos permite chamá-lo


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
:ESTÚDIO 5 by belas-artes ulisboa - Issuu