Alguém caminhou em seu entorno. Alguém impulsionou o seu braço no ar. Alguém lhe tocou um pouco intimamente. (...) Na terceira hora todas as suas roupas foram cortadas com lâminas de barbear. Na quarta hora as mesmas lâminas começaram a explorar sua pele. Sua garganta foi cortada para que alguém pudesse sugar seu sangue. Várias menores agressões sexuais foram realizadas em seu corpo. Ela estava tão comprometida com a peça que não teria resistido ao estupro ou assassinato. Diante de sua abdicação da vontade, com este implícito colapso da psicologia humana, um grupo que buscava protegê-la começou a se definir na platéia. Quando uma arma carregada foi empurrada para a cabeça de Marina, tendo o seu próprio dedo sido colocado no gatilho, uma briga irrompeu entre as facções do público (McEvilley, 1982: 52).
A potência deste trabalho deve-se não tanto aos 72 objetos dispostos sobre a mesa, dentre os quais muitos poderiam dar fim a uma vida, quanto a assunção do risco por parte da artista, que se responsabilizava por tudo o que naquela noite viesse a acontecer. Quem se não o condenado indefensável, já subserviente, encontra-se impassível diante daquele que lhe aponta a arma? Qual figura, que não a da autoridade competente, dispõe de uma arma de fogo se não aquela do bandido? Quem se não a puta, ‘Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demônios’ (Lucas 8:2), seria se não a culpada por corromper aquele que lhe suga os seios fartos, por oferecer prazeres baratos até mesmo ao pedinte mais repugnante? Quem se não a mãe, culpada pelo crime mais bárbaro, poderia inspirar compaixão àqueles mesmos que a julgavam facínora, levando-os a arriscarem as próprias vidas em defesa daquela criminosa já ao pé do cadafalso? Quem se não Madona, a virgem que engravidara e dera à luz ‘um filho, por obra do Espírito Santo’ (Mateus 1:23:25), portaria a culpa e a inocência por acolher em suas entranhas Aquele cujo conhecimento estremeria o mundo dos antigos? A artista mesmo o confessaria: ‘o público começou a se tornar cada vez mais agressivo, e eles projetaram três imagens básicas sobre mim: a imagem da Madonna, a imagem da mãe e a imagem da prostituta’ (Abramović, 2002: 30).
431 Revista :Estúdio. ISSN 1647-6158. Vol. 3, (5): 430-436.
‘um extraordinário e paradoxal esforço da vontade, a grosso modo, a vontade de abandono da vontade’ (Ward, 2010: 134). Os visitantes da galeria deparam-se com a artista imóvel, impassível, não exibindo qualquer reação; além de uma mesa sobre a qual estaria reunida uma série de objetos. Na parede havia a seguinte instrução: ‘Há 72 objetos sobre a mesa que podem ser utilizados sobre mim conforme desejado. Performance: Eu sou o objeto. Durante este período assumo total responsabilidade’ (Ward, 2010: 136). A descrição mais detalhada do que teria acontecido na galeria, durante as seis horas de apresentação, é de McEvilley: