356 Alvelos, Heitor (2012) “Palavra.” Revista :Estúdio. ISSN 1647-6158. Vol. 3, (5): 356-357.
Palavra HEITOR ALVELOS Conselho Editorial
A aventura da arte contemporânea segue vivendo o paradoxo da atribuição de sentido e propriedade a um labirinto de soluções que, elas mesmas, negam de raiz, e frequentemente de modo irredutível, uma vocação de comunicabilidade objetiva. A arte insiste em ser veículo de pensamento e esteticização, no arriscado equilíbrio entre a sua suposta subjetividade de que o senso comum se alimenta (e que o senso comum alimenta), e o imperativo, desde logo funcional, de um consenso, única chance de validação e longevidade. Unilateralmente proferida a sua emancipação, regressa ironicamente à palavra na hora de cumprir a sua vocação, de definir e assegurar os seus mecanismos de eco. O que o corpus de determinados artistas nos permitirá, contudo, é o avanço mais substancial (ou, pelo menos, mais declarado) em direção a uma efetiva relação com o conhecimento de ambição universal. Curiosamente, esta possibilidade revela-se de forma mais evidente através da adoção de proto-metodologias de observação, elas mesmas, associáveis a universos da ciência: a análise comparativa, associativa e contrastante de obras de autoria diversa e contextualmente distintas, permite-nos de súbito uma visão clara de como a criação artística pode devolver-nos ao espaço do saber de vocação universal. As pontes (o trabalho de estabelecimento relacional) entre propostas, só aparentemente profundamente díspares, que se criam neste processo analítico, negam a visão singular tão reclamada por tantos criadores, e ignoram o seu frequente síndroma de resolução circular da obra, que se declara previamente cumprida, permitindo somente uma relação subsidiária para com quem a contempla ou, no limite, com ela interage. Ironicamente, e no seu negar da vocação intrínseca da obra para a sua singularidade, estas pontes atribuem-lhe a chave para a sua decifração convergente e, em última instância, universal. Assim é possível falar de Gerardo Delgado, que nos finais dos anos 60 ensaiava relações efetivas com o universo da informática e do cálculo automatizado; mas é a partir daqui igualmente possível, de modo fractal, verificar que a premissa que compara e contrasta Beuys e Hirst na sua manifesta vocação