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:ESTÚDIO 5

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322 Corona, Marilice (2012) “Ambivalências.” Revista :Estúdio. ISSN 1647-6158. Vol. 3, (5): 322-324.

Ambivalências MARILICE CORONA Conselho Editorial

Segundo o dicionário Houaiss, ambivalência significa condição ou caráter do que é ambivalente, do que apresenta dois componentes ou valores de sentidos opostos ou não. Pode ser a existência simultânea, e com a mesma intensidade, de dois sentimentos ou duas ideias com relação a uma mesma coisa e que se opõe mutuamente e, por extensão de sentido, relaciona-se o termo com a noção de ambiguidade. Este, além da ideia de simultaneidade, carrega consigo um certo caráter obscuro que dificulta o desvelamento do sentido, ou seja, da “verdade”.

Desde os gregos, toda discussão sobre a imagem (visual ou literária) está associada à discussão sobre o verdadeiro e o falso, ou seja, sobre o acesso à verdade. Portanto e, para tanto, no decorrer da história, o deslizamento de sentidos ocasionado pela ambivalência da linguagem poética deveria ser evitado. No campo da arte, a ambivalência ou a ambiguidade de uma imagem é exatamente aquilo que a qualifica. Em primeiro lugar por que a torna uma imagem polissêmica, aberta, prenhe de sentidos e, em segundo e em decorrência disso, por que tem o poder de colocar o espectador/leitor em situação de estranhamento. Estranhamento este que, como diria Ginzburg (2001: 41), seria o “antídoto eficaz contra um risco a que todos nós estamos expostos: o de banalizar a realidade (inclusive nós mesmos).” No capítulo que segue, a ambivalência se fará presente de muitas formas e, não por acaso, os artigos aqui reunidos apresentarão em comum, em sua maioria, a análise crítica da obra de artistas que se utilizam da fotografia. Como sabemos, a fotografia quando da sua invenção no século XIX, veio suplantar de modo muito mais eficaz a função de documento desempenhada anteriormente pela pintura. Sua eficácia estava calcada na relação objetiva com a realidade, em sua rapidez (evidentemente alcançada em algumas décadas pelo avanço tecnológico) e em sua reprodutibilidade. Como teria dito André Rouillé, havia sido criada uma forma rápida e ideal de “inventariar o mundo”. Se o papel de espelho do mundo fora outorgado durante séculos à pintura, naquele momento, a fotografia tornara-se sua maior representante. Mesmo que,


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