245 Revista :Estúdio. ISSN 1647-6158. Vol. 3, (5): 244-246.
“criou a sua própria «indústria criativa», integrando mecanismos de produção e divulgação, nacional e internacional, que resultam da sua faceta multidisciplinar e da sua capacidade de gestão da arte.” Nessa perspectiva a autora salienta o carácter funcional e de design que estas obras possuem, considerando a moda como um elemento subjacente, ou mesmo uma linguagem, a partir do qual a escultora “analisa o mundo”, propondo retratos sociais que ganham reconhecimento internacional em forma de objectos que, ao invés de vestirem corpos, vestem ideias. Aparecido José Cirilo investiga, em dois textos distintos, os processos de criação das obras Pela Fresta (1998), de Shirley Paes Leme, e Seu Sami (2007) de Hilal Sami Hilal. Em ambos busca a mesma verdade centrada no tempo de feitura das obras: recuperar o processo criativo que as originou; encontrar as pistas que permitam elucidar acerca das decisões tomadas, desde a “imagem geradora” até à concretização no espaço expositivo. O autor busca compreender os procedimentos, investigando as acções e memória antecedentes à materialização das obras. Relativamente a Shirley Paes Leme destaca a importância do espaço da galeria na obra analisada e explica, por exemplo, a pertinência do procedimento de escolha do título para a relação de sentido que irá ser estabelecida pela obra como um todo. Apresenta-nos ainda indícios da construção da “tensão da memória da artista” em diálogo com a memória do espaço e da matéria, a qual constitui um fio condutor que direcciona a génese das suas obras. Na análise da obra de Hilal Sami Hilal, o autor centra-se no tempo da génese de uma obra site-specific - indissociabilidade da forma com o espaço - que foi montada em diversas cidades. A partir da geração da obra, complementada com aspectos das suas montagens, o autor busca “evidenciar como tendências e intencionalidades do projeto poético são afetadas na medida em que deixa de ser um site-specific e torna-se uma instalação comum.” Assim, neste seu segundo texto, Aparecido José Cirilo põe em confronto o propósito que presidiu à obra - e a sua natureza de site-specific daí resultante - com o contexto expositivo em que a mesma surge posteriormente: “a relocação de Seu Sami altera seu efeito de sentido: retirada do Museu Vale a obra é destruída, embora sua forma física permanecesse (…) os espaços novos deixam de ser matéria da obra e se torna uma estratégia de emolduramento.” Joana Tomé examina a obra da artista portuguesa Ana Vieira, nomeadamente as homónimas Ambiente (1971) e Ambiente (1972), relativamente ao entendimento deleuzeano do conceito de simulacro “enquanto poder positivo na insubmissão ao Logos”, e ligado, por isso, à condição feminina. O simulacro, ao libertar-se da Ideia, do modelo, existe só por si, autónomo e distinto. A autora propõe-se assim pensar a subversiva potencialidade da invocação do simulacro