146 Stratico, Fernando A. (2012) “A relação corpo/objeto e o discurso poético das proposições de Lygia Clark.”
no tempo e no espaço. No centro destas ações está o objeto, que se torna propulsor de energias físicas e psíquicas e também aglutinador e ponto de encontro entre as pessoas. Em Baba Antropofágica (1973), por exemplo, toda a energia psíquica e física dos participantes é gerada por fios de carretéis que são retirados da boca dos participantes, que embebidos em saliva são deixados cair sobre o rosto e corpo de um outro que está deitado. A substância da vida vai, assim, sendo derramada, ou dada para aquele que, passivamente, a recebe. Como em todas as proposições, Clark faz a instrução lingüística para a ação que deve ser desempenhada (performada) pelos participantes. Mas ela própria não enfatiza o valor do objeto que centraliza a ação. Clark concentra-se em abordar uma espécie de “perda da substância” (Milliet, 1992: 139). Porém, sem os fios que primeiramente são colocados na boca, e posteriormente retirados como uma seda de aranha, sem a concretude do material e seus significados embutidos, não seriam possíveis nenhuma das ações e dimensões alcançadas. Portanto, há nestes fios (assim como na fita de Möbius, tesoura, etc) um potencial que age em dois sentidos fundamentais: o corpo do participante e a relação com o outro. O objeto possui a capacidade de ser símbolo, metáfora - como evoca Clark em suas proposições e também a capacidade de ser resgate de dimensões perdidas ou esquecidas do corpo, que se revela no encontro com o outro, que do mesmo modo se relaciona com o objeto. Embora as proposições incluam a participação do outro, Clark ainda preserva os processos solitários de elaboração e criação, nos moldes em que são articulados pela maioria dos artistas. Ainda são seus estes processos, e deles ela não chega a abrir mão. Clark reconhece, no entanto, que seus processos dizem respeito a um compartilhar da obra, sendo que o objeto, os materiais por ela escolhidos, agem como pontes entre a sua corporalidade e a daqueles que a artista almeja tocar. Considerações finais
Nossa reflexão, voltada para as proposições, tomou como exemplos-chaves as obras Caminhando e Baba Antropofágica e indica que a experiência de Clark com objetos e materiais delineia uma poética do corpo que está intimamente ligada à poética do objeto cotidiano. Clark rompe com a relação costumeira mantida em relação ao universo material, e estabelece uma nova relação com o mundo dos objetos. Tal relação restitui um sentido de unidade com o mundo físico, e também com o outro. O objeto na obra de Clark situa-se, portanto, como centro da experiência, por ser ele a potência geradora do encontro. Esta perspectiva pioneira de Clark repercute fortemente nos inúmeros trabalhos da atualidade, que, do mesmo modo, fundamentam-se em poéticas que dependem do objeto cotidiano e também do encontro com o outro para existir.