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:ESTÚDIO 5

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Embora o ato em si, esvanecendo no tempo e no espaço, fosse o objetivo maior contido em suas propostas, era do objeto que emanavam estados corporais específicos, e sem tais objetos não seria possível despertar e fazer explodir a energia corporal e psíquica entre os participantes. Não podemos esquecer também que o material e objeto utilizado nas proposições eram também signos carregados de sentidos e conexões ideológicas. Assim como a fita de Möbius está plena de sentidos e pensamentos, outros materiais como o plástico e a borracha estão repletos de conteúdos aos quais somos remetidos mesmo inconscientemente. Invertendo a relação com os materiais que são fundamentais para a sociedade de consumo, Clark apresenta uma relação do não-trabalho, do não consumo, da não-utilidade. Neste sentido, Clark toca no que Jean Baudrillard veio a chamar de hiperrealidade – uma realidade social na qual perdemos a relação direta com os objetos, uma vez que estes deixaram de ser feitos para a utilização, sendo construídos e consumidos apenas como significação. De acordo com Baudrillard a concepção tradicional de signo como um elo entre o significante e significado, que refere-se a um conceito, não é mais possível, porque as representações da realidade foram tomadas por uma interminável sequência de representações da realidade (Baudrillard, 1992: 179). O signo não situa o sujeito em relação a uma representação da realidade; o signo refere-se a outro signo, a outra significação, e assim sucessivamente. Esta avalanche de signos, de acordo com Baudrillard, está presente no âmbito da vida diária, bem como na ciência, na arte, na tecnologia, na religião, na linguagem, etc. É provável que isto seja o resultado da sociedade de consumo em que vivemos, na qual o objeto de consumo é o resultado da reprodução constante de significações. O objeto deixou de possuir um elo com a realidade de seu próprio uso e utilidade, porque agora ele está além da realidade, habitando, assim, a esfera das significações (Baudrillard, 1992: 10-28)). Atentos à crítica à sociedade de consumo, Lygia Clark, assim como Hélio Oiticica “sabotavam” o ciclo consumista e hiperreal presente até mesmo nas galerias de arte. As referências a Herbert Marcuse são muitas, e estão ligadas a um sentido de “marginalidade”, principalmente na obra de Oiticica. Porém, diante da hiperrealidade – uma sociedade em que os objetos é que significam e dão valor à pessoa humana – Clark contrapõe e encara esta realidade com propostas de ações que devolvem um sentido perdido do corpo e de seu posicionamento

145 Revista :Estúdio. ISSN 1647-6158. Vol. 3, (5): 142-147.

plástico que é baratíssimo, catando pedras nas ruas, ajuntando aqueles sacos vazios e felicíssima! Acho que é a primeira vez que estou num tal estado depois da descoberta do Bicho (Figueiredo, 1998: 142)


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