Stratico, Fernando A. (2012) “A relação corpo/objeto e o discurso poético das proposições de Lygia Clark.”
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fragmentado que busca sentir-se um todo, busca redescobrir-se (Clark, 1975: 2).
Caminhando (1964) é uma das primeiras proposições de Clark. Nesta obra, estão em jogo, o ato e a nostalgia do corpo. Sua instrução verbal propõe que uma fita de Möbius (em papel) – a expressão matemática do infinito – seja cortada longitudinalmente com uma tesoura, até que se acabe o percurso da tesoura e do corte. Conforme Clark, Caminhando é uma proposição destinada àqueles cujo trabalho perdeu toda a expressividade – o diálogo do artesão com sua obra. Clark argumenta que as relações com o trabalho foram destituídas da expressividade, de modo que o trabalho tornou-se estranho ao ser humano. Clark supunha ser necessário, portanto, que se buscasse redescobrir o próprio gesto que contem uma nova significação. Porém, para que isto acontecesse seria necessário que houvesse algo mais além da manipulação de objetos e participação do espectador. Conforme Clark, há uma necessidade em que “a obra se complete em si mesma e seja um simples trampolim para a liberdade do espectador-autor” (Clark, 1980: 27). De acordo com Clark, a importância de Caminhando está no ato de cortar, e não exatamente na fita. Quando a experiência se acaba a fita é jogada fora, restando apenas o ato do corte e a imanência deste ato. Para Clark o novo conceito de imanência foi “a coisa mais importante que o Caminhando lhe trouxe” (Clark, 1968). Nas palavras de Clark: A primeira vez que cortei o Caminhando, vivi um ritual muito significativo. E eu desejo que esta mesma ação seja vivida com a máxima intensidade pelos participantes futuros. É preciso que ela seja puramente gratuita e que ninguém procure saber – quando estiver cortando – o que vai ser cortado a seguir ou o que já foi talhado antes (Clark, 1980: 27).
Embora Clark tanto enfatize a importância do ato em detrimento do objeto em si, gostaríamos de destacar o papel propulsor e catalisador dos objetos e materiais de suas proposições. A imanência do ato, ou seja a experiência pura de um ato compromissado unicamente com a ação presente, só é possível pelas qualidades emanadas do objetos. Cada material escolhido por Clark traz consigo uma potência expressiva e também sensitiva. Textura, temperatura, flexibilidade, durabilidade, cor, cheiro são algumas das qualidades dos materiais, as quais fazem emanar, no ato, energias e estados específicos. Não é um mero acaso, que Clark passava longos períodos apenas em busca de materiais. A folha plástica, fina e flexível, esteve presente em várias de suas instalações e proposições:
Estou numa fase de doido. Trabalhando como uma maluca, comprando