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:ESTÚDIO 5

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1. O Ato da Proposição

Na tentativa de explicar as ações que acontecem no momento da proposição, Clark elaborou com esmero um pensamento que se voltava para o ato. Para ela, o ser humano é uma ‘totalidade espaço-temporal”. O ato imanente tem a capacidade que fazer com que ultrapassemos o limite temporal. De acordo com Clark, as ações imediatas de uma proposição fazem com que o passado, o presente e o futuro se misturem. Clark fala sobre a percepção de um tempo absoluto que incorporaria o que estaria sendo derivado do ato em si. No ato da proposição, afirma a artista, não existe distância entre o passado e o presente. Estas dimensões de nossa psiquê estariam fundidas, e assim percebidas no momento do ato instantâneo da proposição (Clark, 1980: 24). Clark salienta também que o ato não é renovável, a repetição de uma proposição ou ato seria a configuração de uma outra significação. Nenhum traço da percepção passada poderia estar presente em uma repetição. Conforme Clark: Só o instante do ato é vida. Por natureza, o ato contém em si mesmo seu próprio excesso, seu próprio vir-a-ser. O instante do ato é a única realidade viva em nós mesmos. Tomar consciência já é ser no passado. A percepção bruta do ato é o futuro de se fazer. O passado e o futuro estão implicados no presente-agora do ato (Clark, 1980: 27).

A intenção que antecede ao ato é a de despertar a nostalgia do corpo, a qual diz respeito, em nossa visão, à triste memória, e estado de melancolia de um corpo

143 Revista :Estúdio. ISSN 1647-6158. Vol. 3, (5): 142-147.

a investigação concreta, e posteriormente é abandonada em função de seu trabalho com os objetos relacionais, experiência esta calcada na terapia. No início dos anos sessenta, Lygia Clark, passou a concentrar seu interesse e atenção sobre o que ela chamou de proposições. Ao invés de obras elaboradas para o consumo, como eram suas esculturas “Bichos”, feitas para serem contempladas ou manipuladas pelo espectador, Clark passou a propor obras que existiam unicamente por meio das ações dos espectadores. Tais proposições consistiam em ações realizadas com objetos, geralmente industrializados. Este estudo apresenta uma análise crítica voltada para a relação corporal estabelecida entre os participantes das proposições e os objetos escolhidos por Clark. Nosso intuito é evidenciar, além do resgate da nostalgia do corpo, como propunha Clark, também o resgate do sentido do objeto para o corpo e para o eu. Evidenciamos também o quanto Clark foi pioneira ao desenvolver uma poética que se fundava na relação com o Outro. O objeto, na obra propositiva de Clark é um elo que une a artista a outros sujeitos.


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