140 Amarante, Joana Aparecida da Silveira do (2012) “’Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência:’ Grupo Poro.”
movimento desordenado das pessoas, um movimento de uma massa informe que nem sequer mais sabe onde vive ou consegue efetivamente vivenciar/experimentar a cidade. O grupo Poro tenta resgatar essa memória dos lugares, tornálos vistos e vivenciados, torná-los espaços. A paisagem inventada Simon Schama nos coloca que, ‘o poder da arte é o poder da surpresa perturbadora’ (Schama, 2010: 11). Poro busca essa ‘surpresa perturbadora’ nos distraídos, nos ‘pedestres ordinários’ que de repente se deparam com imagens, objetos estranhos no meio do caminho e que fazem com que as pessoas pensem acerca disso, se perguntem se aquilo é possível ou não, se é uma ilusão ou é real. São ações que procuram confundir-se com o real, mas ao mesmo tempo gritam ‘não somos verdadeiras,’ ‘não acreditem em nós.’ A dupla convoca o espectador/pedestre passivo a vivenciar a cidade de outras formas ou, simplesmente, observá-la com outros olhos, dando a ele seu tempo, pois o olhar, na contemporaneidade, não possui mais tempo para olhar a cidade. Através de pequenas inserções de imagens ou objetos dentro da paisagem, que se transformam em puctuns para o observador atento, o grupo permite que o detalhe, o insignificante, possa nos surpreender, dando-nos assim, a visão do todo. No detalhe podemos ter a paisagem e sua memória como um todo, apenas através de suas ações simples que enganam nosso olhar. E as ações que enganam nosso olhar são: ‘Azulejos de papel’ (Figura 2), lambe-lambes no formato de azulejos reais com 15x15 cm instalados em fachadas de casas abandonadas, muros caindo, calçadas, que passam a sofrer a ação do tempo, assim como a superfície na qual essas imagens foram instaladas. Assim como os azulejos de papel, que se camuflam na paisagem urbana, confundindo a história real com uma história inventada, são as ‘Folhas de ouro’ (Figura 3), compostas por folhas secas pintadas de dourado e colocadas novamente nas árvores. Poro quer que acreditemos que esses simples objetos, lambe-lambes colados nas paredes, tornaram-se reais e verdadeiros, que fazem parte da paisagem urbana, como se sempre estivessem ali. Azulejos que se confundem com os reais, falsos azulejos de papel, que irão se desgastar, descolar, rasgar, enganar o olhar daquele transeunte que acha que já viu tudo e que não consegue mais diferenciar nenhuma imagem por estar com o olhar sem tempo. Mas aquele que flana pela cidade, que perde tempo olhando o desgaste do muro, a movimentação das folhas das árvores, percebe que há algo errado. Mesmo que se engane por um curto período, o crime já foi cometido e não há mais volta. Agora ele é obrigado a parar e prestar atenção a