72 Pereira, Maria Leonor de Almeida (2011) “Looking Forward to See You: Rui Calçada Bastos, Arte e Empatia.”
‘quase hipnótico’ da presença, acrescido, no segundo caso, pela tensão gerada na passagem alternada de observador a observado, introduz o fenómeno empático no cerne da experiência estética. … its presence in the exhibition is almost hypnotic. The protagonist´s gaze is then metamorphosed into a viewpoint towards an inner world. Centering his attention on it, the beholder scrutinizes her thought´s, exploring the psychological dimension of her personal identity. — Miguel Amado O que nos é dado experienciar é a sensação de acesso ao outro, uma sensação imediata que não pode resultar da inferência de sentidos a partir de experiências pessoais (J. S. Mill’s System of Logic) ou da projecção de um sentimento suscitado pelo impulso mímico (Lipps), mas de algo que, ao compreender tudo isto, nega esta perspectiva solipsista incluindo na experiência do espectador algo que o excede, algo que não estava lá antes. Sem deixar de ser a experiência de si próprio é também a experiência do outro; de igual modo, o que projectamos nesses olhares inclui a sensação de que a experiência do outro nos inclui (Figura 3). Husserl (1859-1938), Scheler (1874-1928) e Stein (1891-1942) rejeitam a teoria de Lipps que consideram ser sobre contágio emocional e defendem que podemos experienciar a emoção do outro, o que não quer dizer que estejamos no estado emocional correspondente. Husserl refere que, diferentemente da própria experiência, a experiência do outro não nos é dada na sua forma original, eu não acedo a ela através de uma consciência interior mas através de uma percepção externa. Esta não correspondência não é uma imperfeição, é uma diferença constitucional: é precisamente o facto de a experiência de acesso à mente de outros ser diferente da experiência de acesso à minha própria mente que nos permite afirmar que as mentes que estamos a experienciar são as mentes de outros (Zahavi, 2010: 294-5). Dufrenne (1910-1995) não fala de empatia mas de ‘consciência-corpo’. É o corpo que primeiro estabelece o contacto com o real e é através dele, e não apesar dele, que o real se configura como tal. O corpo antecipa-se involuntariamente. Não podemos pensar o mundo sem que se dê a passagem do involuntário ao voluntário a que Dufrenne se refere como ‘tornar-se corpo’ – um processo de ‘solidariedade’, mas também de “tensão entre a pura afirmação de si e o domínio de si” (apud Pita, 1999: 61). Tensão que marca não uma passagem transitória (uma vez que o voluntário jamais se sobrepõe ao involuntário) mas a própria maneira de ser do ser que assim se esquiva à evidência. Para Dufrenne, este diálogo ou consciência-corpo “é tanto mais livre, tanto menos solicitada por uma pressão da consciência colectiva, quanto a sua integração for mais completa e quanto se sentir comunicar mais profundamente com as outras consciências” (apud Pita, 1999: 55).