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:ESTÚDIO 4

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Revista :Estúdio. ISSN 1647-6158. Vol. 2, (4): 55-60.

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Construiu, no início dos anos 1930, várias bonecas com a ajuda do seu irmão, em parte como protesto contra o regime nazista e o seu culto do corpo, e em parte como expressão de erotismo. As partes articuladas podiam ser desmembradas e reagrupadas em qualquer postura erótica ou masoquista. Esses objetos fetichistas eram fotografados posteriormente pelo artista, cujo sadismo atraiu os surrealistas. Em 1935, enviou uma série de fotografias para Breton e Paul Éluard, em Paris e, pouco depois algumas foram publicadas no Minotaure e em uma edição de Cahiers d’art. Paul Éluard selecionou catorze fotografias de Bellmer e “ilustrou” cada uma com um pequeno poema seu; esse trabalho de colaboração só foi publicado dez anos mais tarde pelas Éditions Premières, com o título Les Jeux de la poupée (Os Jogos da Boneca). Na fotografia La Poupée, de 1934, (Figura 2) Hans Bellmer compõe “a cena” mesclando partes de manequins com flores e tecidos estampados. Ao mesmo tempo em que o trabalho de Bellmer remete ao feminino, ele coloca-o em questão ao contrapor o domesticado e o selvagem, contra a violação e espetacularização do corpo, o culto do automatismo e da inovação alimentados pelo mercado atual. Distanciando-se da consciência do próprio corpo, de percebê-lo em sua totalidade (matéria e espírito), como templo, como habitação primeira, buscando harmonia com o meio. O corpo cada vez mais automatizado, robotizado e “domesticado”; como traz Artaud, que diz que ele é submetido e “adequado” aos espaços destinados a ele, público e privado, urbano e institucional. A atenção de quem projeta, muitas vezes focada na estética superficial, deixa em segundo plano a preocupação com as condições corporais como o conforto e a ergonomia, nos diversos ambientes de convívio, sejam eles espaços públicos ou espaços arquitetônicos privados. Sobre o domínio mecânico no corpo, a manipulação dos afetos, outra linha de reflexão é apontada por Michel Foucault com a teoria do biopoder, em que “O controle da sociedade sobre os indivíduos não se faz apenas através da consciência ou da ideologia, mas também, no corpo e com o corpo” (Novaes, 2003: 11). Como um exemplo de manipulação sobre os indivíduos pelo corpo, escreve Michel Foucault: “Como resposta à revolta do corpo, encontramos um novo investimento que não tem mais a forma de controle-repressão, mas de controle-estimulação: ‘Fique nu... mas seja magro, bonito, bronzeado!’ ” (Foucault, 2008: 147). O desenho revela algo relativo à situação atual inserida, à vida interior do sujeito que observa e desenha; revela a impressão profunda das coisas que o cercam e contaminam seu modo de ver e seu imaginário, constantemente renovado. O corpo é modelo, representação, signo. Utilizo-o para expressar pensamentos e reflexões por meio do desenho, que traduz sensações, reflexões e gestos em linhas, imagem, comunicação.


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