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:ESTÚDIO 4

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Manéa, Fernanda (2011) “O corpo — objeto de observação e meio de percepção/expressão.”

Um espelho tão grande quanto essa multidão; um caleidoscópio dotado de consciência, que, a cada um de seus movimentos, representa a vida múltipla e a graça movediça de todos os elementos da vida. É um eu insaciável do não-eu, que, a cada instante, o traduz e o exprime em imagens mais vivas que a própria vida, sempre instável e fugidia. O corpo vê, projeta, e se reconhece no que vê. Conforme Maurice Merleau-Ponty (apud Kern, 1995: 61), o corpo “[...] é ao mesmo tempo vidente e visível. Ele, que olha todas as coisas, também pode olhar a si e reconhecer então no que está vendo ‘o outro lado’ de seu poder vidente. Ele se vê vidente, toca-se tateante, é visível e sensível por si mesmo [...]”. Alguns artistas que trabalham com a representação do corpo em suas obras, expressando nelas reflexões sobre o humano são Egon Schiele, Kiki Smith e Hans Bellmer. É com prazer que Egon Schiele “[...] faz nos seus trabalhos experiências com diversos planos da realidade. Em Schiele Desenhando um Modelo Nu em Frente ao Espelho, ele capta-se a si próprio no espelho e o modelo (provavelmente a bailarina Moa) simultaneamente vista de frente e de costas [...]” (Fischer, 2007: 152). A obra de Egon Schiele expressa as tensões do corpo humano por meio do gesto expressionista e da linha firme e decidida, principalmente em seus autorretratos contorcidos, nos quais destaca as extremidades com coloração avermelhada e os dedos das mãos alongados. Schiele, coloca-se simultaneamente na posição de observador e observado. Além do duplo papel de observador e observado, Egon Schiele projetava sentimentos de vida e morte nos corpos, muros e vilas. Para Schiele, assim como o corpo humano, as plantas e os muros da cidade também são portadoras de expressão; são espaços de associação com os próprios sentimentos. Elas corporizam sentimentos e simbolizam a simultaneidade da vida e da morte. Como escreve o próprio Schiele “Atualmente observo principalmente o movi-

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intimamente relacionado aos conhecimentos adquiridos (universo interno, lembranças, registros de momentos vivenciados envolvendo seus limites físicos, culturais e sociais). Conforme Evgen Bavcar, artista e filósofo, nascido na Eslovênia em 1946, naturalizado francês em 1981, onde vive e trabalha, autor de vários livros, entre eles Le voyeur absolu: “O corpo torna-se assim, ao mesmo tempo, o espelho e aquele que observa, a visão e seu reflexo, isto é, o Eu sabendo-se visto, tanto como o Eu não se sabendo visto, que procedem da mesma experiência do olhar corporal.” (Bavcar, apud Novaes, 2003: 181). O corpo criativo e consciente do artista que observa e representa um corpo como uma alegoria dos corpos em geral, anônimos, da transformação constante da vida. Do caráter instável e efêmero tanto do corpo representado quanto do suporte escolhido, podendo ser comparado ao poema de Baudelaire (1976: 352):


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