Cinco desenhos à procura de um artista
[...] – Estamos aqui em busca de um autor. [...] – De um autor? Mas de qual autor? [...] – De um qualquer .... Pirandello (2009: 110-111) Em Seis Personagens em Busca de Autor, o ponto vê a sua função – recordar aos actores os diálogos –, alterada para a de estenógrafo – escrever com a rapidez das palavras ditas pelos personagens, o texto que os actores hão-de representar. Este texto tem o poder de chamar ao palco personagens ausentes, que saem de uma outra história, atraídas pela cena de que originariamente faziam parte. Separadas do autor em que a sua existência teve início, essas personagens, sempre à mercê da incompreensão que as palavras provocam e do estilhaçamento que todas as possibilidades de ser precipitam, viverão eternamente o conflito que separa a arte da vida. Mas esbatidos os limites que prudentemente separavam a ficção da realidade, esse conflito instala-se num espaço ambíguo que admite a reversibilidade de todos os papéis e de todos os lugares e onde conceitos como eternidade ou transitoriedade são apenas graus de existência de corpos e figuras em trânsito à procura da sua autoridade, seja ela a da personagem, a do actor ou a do autor. Produzida colectivamente ao longo da Idade Moderna e até finais do século XIX, essa autoridade teatralizava o corpo, revelando-o ou dissimulando-o como um espectáculo que, embora expandido em múltiplas narrativas, mantinha intacta a distância do espectador e a assunção dos papéis representados. No século XX, o corpo torna-se a ficção, individualmente produzida, de que o
Revista :Estúdio. ISSN 1647-6158. Vol.2 (4): 23-30.
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de que nós estejamos prontos para aceitar o jogo da sua libertação, de o aceitar enquanto verdadeiros códigos de comportamento que correspondem evidentemente a uma regra, a uma realidade social.” (Bourriaud; Restany, 2000: 23). É o regresso do imaginário individual ao imaginário colectivo e a uma realidade povoada agora de corpos e seres que se decidiram mutantes, na qual cada um é tantos quantos as suas possibilidades de ser. As figuras de Pedro Saraiva estão vestidas com roupas indistintas, indistintamente semelhantes. Pijamas, fardas ou uniformes, roupas de mascarados ou asilados, elas sublinham o carácter alienado das personagens, o seu alheamento de si e a sua eminente transferência para um outro corpo (um outro lugar) que as abrigue. Corpos surrealisticamente celibatários, sem genealogia nem descendência, são sempre corpos no início de uma história que começa na sua instável presença porque, como diz Bourriaud, “o monstro nada mais é do que a absoluta liberdade, o grau zero de todas as coisas virtuais, de todos os cenários” (Bourriaud; Restany, 2000, p 21).